02 fevereiro 2011

placenta

Suas palavras afundaram como pedras, pungentes como a saudade de um morto. Corri, andei em direção ao quarto. Entrei, fui até o espelho, tirei toda a roupa, peça por peça. Era triste, mas era verdade. Senti-me ridícula. Tentando capturar a juventude a fórceps. Os seios minúsculos e murchos não se acomodavam em minhas mãos inescrupulosas e duras, a artrite já tinha corroído minhas articulações. A rosa tatuada também murchara e jamais seria colhida. No ventre, as trilhas eram profundas e de um perolado fosco. Todos os espermas que, por vaidade, matei estavam ali, vivíssimos, rindo da minha antiga polidez. Tentei bisbilhotar por dentro de mim à procura de consolo. Inviável. Estava morta. No lugar das enguias, tripas secas. Retirei os dedos. Agora uma vagina era apenas uma vagina. Uma matéria escura. E eu estava mijando para o universo. Olho para o chão, alguns tacos estão soltos. Tanto tempo passou e tudo que eu queria era anoitecer e poder ver a Ursa Maior se eternizando na brancura do teto.