04 fevereiro 2011

um fio de saliva


Um fio de saliva escorre-me
pelo canto da boca
E uma aragem fria atravessa-me as pálpebras
até à nuca.
Um sopro de dor acre,
...esmaecida como nuvem de poente,
paira suavemente pela grama de um jardim.
Sempre além do que sonhamos.
Uma meia dúzia de transeuntes
Passa no passeio frente ao café
Em que estes pensamentos de nada
Me obrigam à grafia deles.
E as sílabas vagamente sensitivas
Querem-se outra coisa
Que não a volúpia cansada
Das frases que não acabam nunca
Como por exemplo:
Desérticas línguas
Ou
Cidades invisíveis
Ou
Espessas gotas de sangue
Escorrem pelo corpo do tempo
Numa cristalina fiada exangue
De versos levados pelo vento.

fernando martinho guimarães