07 fevereiro 2011

Um menino que gostava de hóstias



Está aqui atravessado na garganta.
Já lá vão uns anos que tombei ali na estrada. Eu temia a todo o momento qualquer réplica do Raul, que por aqui vinha passar as suas férias de Verão. Bastou apenas que eu tivesse feito queixa dele a D Camilo, afogara-lhe algumas galinhas carecas no seu poço, e um olhar mortífero e acusador encontrava-o sempre no seu rosto cru e enigmático. Os avós e tia do fedelho tentavam moderar os seus instintos. Além dos bons conselhos que lhe ministravam a pedido dos pais, mandavam-no à catequese aqui na aldeia sob a custódia de D. Camilo, que foi o padre desta povoação durante longos anos. Se bem que para eles fosse isso o mal menor. Sabiam eles o quão de besta era o pároco. Mas, enfim, se calhar até não estavam para aturar o rapaz traquina que muitas vezes com as suas irreverências só lhes dava desgostos.
Nessa madrugada do meu acidente só o luar o viu saltar sobre a estrada. Eu o constatei mal accionei a motorizada. Dentro de uma hora acordaria o padre, lá em cima na sua residência junto à Igreja Matriz.
Bem me arrependi no momento da queda, em não ter alertado D. Camilo de certas movimentações esquisitas entre a rapaziada dali. Cochichavam, reuniam no largo do cruzeiro e mediam o espaço duma forma, que para nós adultos se tornava ridículo. Mas para eles, o ridículo seria dentro de dias o que constatavam dentro da fogueira, que ali, naquele espaço, fariam arder sem dó nem piedade.
A julgar pelo que me era dado conhecer acerca do rapaz, eu próprio posso afirmar sem erro que nessa madrugada de domingo o ódio aliciava-lhe a alma. Caminhava ao longo da aldeia no sentido da Igreja Matriz. Pela adoração que tanto tinha em viajar de comboio e estar longe dos pais, que o castigavam severamente, bem se pode avaliar tudo quanto recusava. Desde o gosto que tinha em encavalitar-se no arado dos avós; o sentir alegria quando o mandavam de carrela a apanhar a bosta para estrume e para a vedação da tampa do forno; o brincar entre as galinhas e enfiar-lhe o dedo na cloaca, na ânsia de encontrar algum ovo sem casca e comê-lo assim cru e tenrinho; escorregar pelas medas de palha e largar poio entre o milho... tudo, tudo teria que varrer da mente para encetar esse marcha.
Passava então ali junto à casa do tio Vieira e abrandei a velocidade do velocípede. Fazia-o com a usual prevenção. Curva rigorosa ali existe com 10% de inclinação à direita. Aí ia eu accionado com os meus pensamentos no serviço que tinha que preparar na sacristia entes de acordar o padre. De repente estoura o pneu da frente, ziguezague, prá ali, prá acolá, resvalo... e o estrondo faz-se sentir contra o muro ali existente. Queda dolorosa, onde os ossos raspados no pavimento tem o seu lugar. E não conseguia levantar-me. Por momentos fiquei debaixo do aparelho que ainda trabalhava, mas com fuga de gasolina. Olhei o reflexo do luar na estrada. Vi pois a causa. Um mar de tachas banhava o pavimento. E um vulto pequeno aproximava-se...
Que alegria senti nesse instante, saber que seria ajudado . As dores quase se volatilizavam. Embora já vertesse sangue pelas coxas. Então foi o horror. Esse vulto, o Raul, não cumpre os devidos preceitos que a moral, pelo menos, ensina aos bons cristãos. Apenas abre religiosamente uma caixa de fósforos... e o fogo logo se ateou à gasolina para me abraçar num aperto louco e devastador.
E o rapaz arrancou enquanto eu gritava. Por sorte consegui libertar-me das alavancas da morte, e rolar-me no pavimento até o fogo se liquidar. Queimaduras horríveis ainda as tenho na cara e nas mãos. Apenas justificaria a D. Camilo o meu atraso ao serviço com o estado lastimoso do meu corpo. O que não acontece, conforme se verá. Mas ai de mim que noutras situações ele acordasse e eu entretanto longe dele. Quem lhe dava banho, hem? Espancava-me é o que é. Ele bem sabia a chantagem que podia fazer. Dava-me sempre volta ao miolo. Como não o fizera a todos os sacristãos que por ali passaram. Mas comigo, soube bem dirigir-me preso à sua batina. Eu era um autêntico rafeiro, submerso no saco da sua chantagem. Em tempos passados descobriu que era eu que largava aqui no povoado panfletos clandestinos desmascarando a ditadura nacional de então. Existia por aqui forte movimento que apoiava a candidatura de Humberto Delgado. D. Camilo não reagiu de momento. Fê-lo no dia em que decidi despedir-me. E como até aí as minhas convicções políticas não eram sadias, apenas o dinheiro que recebia desse movimento me colariam politicamente, que outra alternativa teria senão retirar a demissão e submeter todo o meu ser às suas arbitrariedades!? Na altura, depois de acertadas as contas com o padre, até fiquei contente; quase todos os dias desapareciam de madrugada políticos confessos ou à luz do dia, a Guarda levava-os em carros celulares entre gritos e choros desta gente campesina. O resto entende-se bem. Para mim foram anos de servidão, subserviência.
Várias foram as ocasiões que tive que fazer queixa de quem dissesse mal do padre para poupar a minha pele.
D. Camilo era um tirano. Coagia-nos desde o baptismo. De si esperava-se o terror. Ai daquele que não pagasse a bula a tempo. Ou se porventura ao longo dos caminhos não fizesse a respectiva vénia e beija-a-mão. A sua vara particular caía no corpo de todos carregada de ira e respeito.
Decerto pensava ele que morreria sem mais se alterar o clima coercivo a todos nós imposto. Só que ele nos seus programas déspota-clericais, não previa que a uns largos quilómetros daqui, nasceria um fedelho traquina que o colocaria na ordem e na desgraça. É evidente que quem sai aos seus não degenera. Lembro-me bem do pai do Raul, também tinha as suas traquinices. Ele e outros fartavam-se de me roubar carneiros e de os assar no monte. Mas o castigo era o prémio imediato do velho, duas correadas e pronto.
Já em plena catequese Raul adquiriu o gosto excessivo por hóstias. Sempre que possível comungava. Facto considerado estranho, sendo ele um ser profusamente rebelde. E lá estava sempre presente, vê-lo a estender a língua, olhos arregalados, largando estalactites de saliva que caíam eventualmente nos sapatos do padre. Facto este que nunca deu com o fenómeno. Ministrava o corpo retalhado pelos homens de olhos fechados. E que logo dava azo a comentários diversos; ou seria apenas pela pureza do acto, ou por não ter que enfrentar a possível ira dos seus submissos paroquianos.
Rápido constatei que o moço roubava hóstias do sacrário. Não actuei de momento. Isto porque levantaria uma questão deveras contundente. Acontece que Raul, durante as férias, todas as quintas-feiras acompanhava a tia, a Maria do Carmo, solteira e entroncada de trabalhar o campo, à limpeza da Igreja. Facto que D. Camilo sabia aproveitar ao enfiá-la na sacristia e pô-la a fazer oração sob os auspícios da sua carcela. Posso afirmar isto a qualquer pessoa. Demais a mais é já do domínio público. Se não o fosse jurava até pela alma dos meus filhos paralíticos. Carmo mandava o rapaz brincar para as traseiras da Igreja. E então já de joelhos, língua em riste como na comunhão com os deuses, permitia que o padre... Ai dela que reagisse! Tudo tinha de bater certo; como acontecia nas cenas litúrgicas, como no púlpito da Igreja D. Camilo condenava os orgasmos clandestinos e outros que não fossem directos a filhos de Deus. Raul aproveitava então a sua oportunidade em abrir o sacrário. Sabia onde se pendurava a chave, e roubava hóstias tantas quantas a mão apanhava, indo comê-las depois, e gulosamente, no confessionário.
Foi numa dessas quintas-feiras em que ele descobriu as cenas no ressalto da sacristia. Ousou espreitar, como eu o fazia no momento, e constatou o horror quase impossível a seus olhos. Ali viu que afinal a pila não é só para fazer xixi, coitado.
Vi-o correr pela estrada fora. À Tia, logo que pude, disse-lhe que o Tio Vieira que seguia um pouco à frente com a carroça dos bois, o levara para a quinta.
Passados que foram uns dias encontrei Maria do Carmo. Um pouco a experimentá-la disse-lhe que Raul gostava muito dela. A que ela acusou; que não podia ser, ultimamente até evitava os seu beijos, carícias... e de adormecer embalado por ela à noitinha!? Depois disse - lhe estar a par de tudo.
Mais tarde, ainda soube pela mesma boca, que me parecia diminuída de cheiros genéticos e fétidos, que os seus pais bem poderiam ter reduzido essa obrigação para com o representante de Deus. E principalmente havia que defender o bom nome da família. Fora o seu sobrinho que se fartava de pedir aos avós que a coibisse de continuar “semelhante” limpeza. Contudo, à primeira investida disseram-lhe que existia um contrato, e que para lá das convicções, subsistia a ameaça que impedia o gado deles ir ao pasto abundante nos terrenos do pároco; ali para trás. À nova abordagem o avô correou-o no lombo... ousara exemplificar à frente da avó, no pormenor, aquilo que via às quintas-feiras, abaixo do ventre nu e peludo do temido D. Camilo.
Esta questão das hóstias lembra-me um hipotético caso que me fez rir como nunca acontecera na minha vida. Procedia eu ao acto de acender as velas no altar para uma missa que nessa noite teria lugar. Altura em que Raul momentos antes profanara o sacrário. E qual o meu gozo, dou com uma velha a confessar-se... veja-se lá... ao fedelho. Pelos seus gestos aflitivos, li neles que não mais aguentava o saco dos pecados. Remexia-se como que atacada por pulgas. E dizia que sim a todas as intervenções gástricas ou a algum ruído que os dentes do rapaz eventualmente faziam ao triturar as ditas hóstias, no outro lado da rede. E assim foi. A anosa tanto confessou e ouviu, que a sua consciência a obrigou a rezar, se não estão em erro, doze terços e trinta e quatro avé-marias.
Passavam então os anos e Raul descia no apeadeiro. Mais um ano em que encontrava o marasmo de sempre. Algumas casas novas, apenas; dinheiro de França...
Por aqui, à sua maneira o “fidalgote” brincava. Era um brincar já cuidadoso, comedido. Já não respirava aquela alegria, quando, no primeiro ano em que aqui chegou, nos caminhos os camponeses seus amigos de regresso a casa sob sacholas o encontravam de canado no domicílio do leite. Ou se porventura agora lhe ofereciam maçãs e côdeas de broa que restassem no saco da merenda, recusava asperamente. Na quinta, fazer companhia aos familiares, também não sentia interesse. No penúltimo ano que aqui esteve, o seu gosto pelos discos de farinha atingira entretanto o ponto alto; que prazer, que sabor, que felicidade chuchar os órgãos de cristo... Quais ossos de frango caseiro e espalmado morto à traição se lhe comparavam.
E tantas vezes vai o cu ao monte... que acaba por ser limpo às silvas.
Pois aconteceu. Um dia, nesse penúltimo ano D. Camilo acelera o orgasmo. Acabara de ser informado por mim que o fedelho, o rapaz que em tempos lhe afogara as galinhas carecas, profanava o sacrário, roubando-lhe hóstias. D. Camilo preparava-lhe pois uma surpresa. A que não deixo de presenciar. Então descobre-o no confessionário. Pergunta-lhe, sarcástico. – Meu rapaz... queres confessar-te...? O pânico ao moço faz-lhe esconder o corpo na penumbra do armário. Não que a vara do pároco treme sobre a sua cabeça e tem um prego na ponta. Mete-lhe medo. Também se quisesse responder não conseguia. Ocupava de momento a boca com lotes de hóstias.
No fundo para o padre qualquer argumento da criança era nulo. Nem tão pouco entregá-lo pelas orelhas à família. Se apenas pretendia constatar a veracidade da minha queixa, que seria de momento pretexto para aumento de salário, também o seu castigo seria premente. Então, um pouco distante do confessionário eu previa uma sova impulsionada de quilogramas-força sobre o ladrão. O que não acontece. E se a situação não se resolvesse com outra violência mais subtil, consideraria nesse instante o retiro do pároco para o altar como o início de novas relações humanas, a complacência e o perdão para todos nós cairiam dos céus na aldeia, e então viveríamos uma existência onde o medo e o terror dariam lugar à fraternidade e ao amor.
O confessionário ficou abandonado por instantes. Curtos que foram. Maria do Carmo, que saíra entretanto da sacristia tapando a boca com um lenço branco e bordado, acorreu aflita ao encontro de seu querido sobrinho, tomou-o nos braços. Nem uma palavra nem um ai Raul emitia. Mas o sangue, esse sim, saia-lhe em catadupa pela boca, coagulava-se em pastas espessas sobre a sua cara e olhitos. Carmo não conteve um grito de angustia, que se caracterizou rouco, próprio de quem violentava a garganta com objectos estranhos. Que mesmo assim não deixou de incomodar Camilo que abandona o Salão da Igreja rindo em sarcástica chiadeira. Ao seu colo aquele corpinho indefeso acabava de mastigar hóstias diluídas em sangue e lágrimas; e o liquido vermelho brotava-lhe de cortes na boca. Eram lâminas de corte de barba dissimuladas nos discos de farinha a causa daquela boca e rosto rasgado desde as orelhas até ao nariz. Carmo ousou ainda retirar-lhe os pedaços metálicos espetados na carne, enquanto que Raul em soluços os cuspia. Mas não aguenta. Desmaiou em voo directo para o soalho com o rapaz. Sobre tal cena, não tive contemplações. Fretei um carro de aluguer, e dirigi-o ao hospital da região. Coitado do fidalgo, tão novo e ficaria para sempre defeituoso na cara.
Ignorando estas questões, D. Camilo era um homem de responsabilidades. Qualquer um que partisse para a cova, o defunto teria desde já a garantia expressa que ele, o tenebroso padre que à aldeia impunha respeito e veneração em vida, lhe daria ao menos para outra existência, a letal, os devidos responsos. Fosse onde fosse. Parava todas as suas ocupações, mesmo a própria escola primária onde era director e dava aula; fazia-se acompanhado pelas crianças e mais algumas beatas, e eu próprio se presente, para o local da morte. Na Telheira por exemplo, local de extracção de barro; aberturas no solo que dão origem a perigosas rochas fluviais. Quantos se deitavam aí a afogar: questões de partilhas, gado tuberculoso, colheitas perdidas e principalmente o adultério que o padre sabia manejar desde as singulares confissões, à alerta nos púlpitos, accionando o vírus da intriga, do assassínio ou do suicídio. E nos locais de morte os desaparecidos recebiam então as benções com os devidos responsos, cujo evento exultava estandartes e bandeiras litúrgicas sobre os ombros dos demais que se encharcavam com o exagero de quantidades de água benta borrifada pelas mãos do pároco.
Nessa madrugada, ao longe o comboio roçava o ferro das rodas na linha. Ainda que preocupado com os ferimentos, sintonizei-o pelo barulho característico. Parava no apeadeiro um trem de mercadorias. Senti-o deslizar novamente ventoso aos solavancos nos trilhos. De momento abriu-se-me a tola; lembrei-me da pulhice que Raul fez a D. Camilo nos primeiros dias que aqui chegou, depois demais um ano passado. Não se esquecerá ele do terrível verão em que ficara danificado na boca.
Ali mesmo naquela linha, onde um guardador de cabras no pasto não dera pelo esforço que o maquinista fazia ao frenar o trem de modo que esta não lhe retalhasse o corpo. Ninguém ousara retirar dali o corpo, nem a Guarda. Primeiro a benção, como o morto sabia acontecer após a sua legitima fatalidade. Depois as formalidades. Camilo ouvira e verificara as questões. No local ia então proceder ao acto... e não consegue. Da bouça que a linha atravessa solfeja a causa. Cão enorme de goelas ameaçadoras galgou as travessas da linha e sob os nossos olhos impotentes, simplesmente comeu aqui e acolá a maioria dos pedaços de carne traçada, para desaparecer depois através do denso matagal junto à linha. Nem um dos presentes articulou qualquer gesto. Nem ousaramos retirar a cabeça com os olhos revirados em branco do trucidado da boca metálica do canídeo que largava pelos dentes onde a onde, pedaços de miolos pululantes. Era para nós uma afronta o que víamos, e muito mais o entendi segundos depois, quando no interior da mata sintonizei um riso estranho, deficiente, sincopado, mas que revelava profunda alegria dum miúdo que sempre acreditei conhecer.
É certo que D. Camilo fluiu-se na merda. Que outro remédio tinha senão retirar-se!? Todos nós o seguimos, meninos, eu, Guarda e beatas. E por seu imperativo agitamos os estandartes e bandeiras, expurgando agoiro e a má sorte do incauto defunto, enquanto cantávamos “hossana nas alturas”. Vá lá que o dito não teve azar de todo. Ao menos que o cão que o comeu era seu conhecido. Muitos ossos ele lhe dera, e até o próprio Raul gaipos de uvas, quando presente. E afinal também usufruiu dos trâmites de enterro. A Guarda recolheu por sorte um pedaço do seu corpo e o transportou até à tumba num propositado alguidar.
Com dificuldade, ainda perseguia o meu agressor nesse alvorecer. Logrei vê-lo quando ele cruzava já os ares do cemitério. Pareceu-me ouvi-lo rir, sarcástico, atordoado já na sua característica chiadeira gutural. O que não seria novidade. Num silêncio confortante costumava escachar-se nesses propósitos sem razão aparente; ora com os pais, lá na cidade, ora por aí na quinta dos avós ou ali na catequese, o que para um adulto presente consumido e preocupado de momento, essas gargalhadas não vinham nada a propósito. Decerto estas bem irritavam Camilo durante todo o contacto que tinha com o “fidalgote”. Seria mesmo a principal massa que pesara na balança do infortúnio!? Não sei ao certo. Mas o que conheço de relações humanas, é preciso ser-se deveras desumano e insensível em não entender que o riso das crianças são afinal para lá de toda a futilidade que por vezes caracteriza uma inócua gargalhada, são como o digo o simétrico duns gemidos de gente velha. E como estes fazem parte duma existência bem calcorreada, então que se deixe fluir dessas gargantas a alegria de viver, que a nós adultos dela pouco mais nos resta.
Mas esse riso, apenas existia na minha memória. E o seu possível emissor, verificava-o calado, pé-ante-pé, percorrendo calmamente toda a largura do campo lúgubre. Ele aí tinha consciência de certos boatos, ainda hoje subsistem, que as almas penadas se acendiam à passagem rápida de qualquer corpo. Foi por este percalço que a mancar consegui sorrateiro aproximar-me dele. Ia já deitar-lhe a mão... debalde. Decidiu acelerar o passo; porque entretanto atrás de nós cruzava a estrada um grupo de aldeões barulhentos que enxotavam o gado para o monte. Bem tentei gritar, pedir ajuda. Não ouviram as minhas aflições. Passavam entretidos tocando gaitas de beiços e harmónicas. E se por felicidade minha estagnassem o passo, e me vissem, também seria de esperar uma simples indiferença, sabiam o quão de réptil eu era. Mas não é que não fossem boas pessoas. Sempre foram seres de bem. Aceitavam até os males do mundo como entendiam a voragem do bicho da batata. Alimento muito diferente daquele que o pároco lhe dava aos fins de semana. Desde berros e ameaças, passando pelas digestões difíceis de rábulas bíblicas, aos gestos mais concretos: os estalos, os varejamentos e alguma admoestação sobre quem se risse ou tentasse transpor a divisória no salão da Igreja que divide homens e mulheres, e comentar questões durante o acto litúrgico.
Porém, se ainda hoje muitos não esquecem o pulha que muito lhes tramou a vida, muito menos relegariam para o esquecimento as informações de foro político que deles fazia chegar ao padre.
O rapaz perdi-o de vista. Contudo, o que via já bem próximo do largo do cruzeiro electrizava-me. Labaredas enormes iluminavam a catarucha da Igreja Matriz. Tentei ganhar forças, não aguentei. Perdi os sentidos ali pela berma da estrada.
Efectivamente consegui saber tudo quanto aconteceu então. O desaire ali no largo fora visto pelo mendigo que costumava pernoitar sob o beiral da Igreja. Que me procurou dias depois no hospital. Era a paga de um fechar de olhos em tempos passados. Dei com ele a arrombar a caixa das esmolas, mas deste encobri o acto ao padre. Disse-me pois o que aconteceu.
Vira chegar um grupo de crianças armadas de paus e latas que lhe cheiravam a gasolina. Concentraram-se todos junto à residência de D. Camilo e acenderam tochas. Falavam em voz alta uns para os outros, comentando a minha pessoa e Raul; que este acertara com o combinado numas tais cartas trocadas. Cartas que mais tarde me foram mostradas pelos pais duma dessas crianças. Haviam ligado o Raul a todos quantos ficaram impressionados com a pulhice que D. Camilo lhe fizera. Temerosos ficaram com possíveis decisões futuras do celibatário. Conheciam muito bem o seu modo de ensinar na catequese, os seus métodos de dar aulas na escola, e sofriam com os comentários que ouviam de seus pais em desabafo... tudo contribuía para o plano. Consistia fazer com que eu fosse impedido nessa madrugada em chegar a horas ao local de trabalho, pois que por norma o fazia muito cedo. Então, afastada a minha pessoa, que defenderia o pároco se presente, eles o provocavam-no. E o mendigo viu-os apedrejar vidros das janelas daquela almejada residência, esperando que ele aparecesse à porta em ceroulas. Foi nestes preparos e de touca na cabeça que ele bradou com raiva e violência enquanto cacetava sobre todas as crianças. Estas, hoje bem podem agradecer ao benjamim do grupo. Se este nunca assumira papel de relevo entre eles, era quase, digamos, o bode expiatório, e que tantas bofetadas levara na catequese do padreco, assumiu-o nessa madrugada. Enervou-se com o pandemónio. A lata da gasolina salta-lhe da mão e cai no corpo agitado do padre. Depois, o fogo fechou a contenda. D. Camilo caiu no chão já com a cara a arder.
Era incrível o relato do mendigo. Até me ri debaixo das ligaduras, que me tapavam a cara. O relato continuou. Que pena tive em não ter presenciado D Camilo ali aos berros, o corpo a arder-lhe, rebolando na terra entre risos e gargalhadas infantis. Largo que tem somente 50 metros de comprido até à Igreja Matriz. Distância mais que necessária que permitiria a Raul ver de perto um ajuste de contas, cujo sofredor a ele lhe poderia suplicar que lhe abafasse ao menos as chamas que lhe roíam a cara.
Disse-me a completar a narrativa, que todos desapareceram num ápice do largo. Atrás ficavam os destroços letais e fumegantes. Mas o mais incrível é isto. Raul regressou à quinta. Passou por mim, e mais à frente pela motorizada ardida. Subiu à janela do quarto e deitou-se de novo. Digo isto porque entretanto voltei a mim sob a acção de uma enxurrada de água suja dalgum esgoto ali existente. Ao longe o vi; persegui-o então já num estado de desespero. Não tive tempo para descer o morro que confina com a quinta. Minutos depois passava por mim a lambreta do avô do rapaz com dois ocupantes: Raul e o velho, rumavam no sentido do apeadeiro.
Quando saí do hospital. A minha imagem social melhorou um pouco na mente deste povo. Beneficiando disso, passadas umas semanas, consegui falar com o avô de Raul. Pela boca dele ouvi que este fora entregue à Tutoria, como aconteceu a alguns dali. Que ficara abismado com a reacção do neto ao ser internado no Estabelecimento Correcional. O “fidalgote” dissera de latas ao novo tutor, sob a tristeza dos pais e quantos dele ainda gostam, que era bom ver-se livre deles. Nada queria... Que já não o arreliava ter a boca cosida e deformada que lhe permitia apenas alimentar-se de líquidos, algumas papas e, quando a boca infeccionava, soro nas veias. Estava cheio de espelhos que o punham feio, e das meninas da escola que fugiam dele enquanto cuspiam para o chão... Que não lhe importava ser trancado. Também em casa dos pais estava farto de viver... de dormir à força sob a única cama atribuída aos seus irmãos, que sempre tiveram tudo a seu gosto. Detestava-os. Além de não serem franzinos como ele, eram os filhos preferidos do pai e da mãe. Nunca mais se esquecia do que ouvira dizer em casa acerca da sua existência. Por ser permeável às doenças, os pais não tinham o direito algum de lhe atirar à cara que a vida em casa ia mal; porque se gastava muito dinheiro em remédios e ultimamente na compostura da sua boca. Que não fosse ao pito! Que lambessem o sexo um do outro, assim como fazia a tia ao padreco.
E quanto a este, furtou-se sempre a qualquer comentário.
Insisti noutra pergunta. Se desconfiara de alguma anormalidade nessa madrugada. Que não. Fora ao quarto acordar o seu neto.... Pequeno-almoço rápido, abraços e beijos, e seguiram os dois para o apeadeiro. Notara, contudo, uma motorizada destruída ali próximo da casa do tio Vieira. Abrandara como sempre a velocidade do aparelho à passagem do cemitério, curva larga à direita e estavam já no largo do cruzeiro. Aí decidira parar e juntar-se a um monte de curiosos que discutiam em volta de qualquer coisa fumegante. Eram os que iriam à primeira missa submeter-se à ameaças verbais de D. Camilo.
Mas não vira nada de esquisito.

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Mais tarde, o Tio Vieira disse-me que naquelas que foram as últimas férias do fidalgo na aldeia, no apeadeiro ele recebera um beijo.
Que apitara então o comboio entre os pinheiros do vale. E à janela um rosto mordaz e melancólico, olhava o verde da paisagem, enquanto lambia um chupa-chupa..

V.L.