26 março 2011

ARTE E NATALIDADE EM ELISABETE AFONSO - SIMULACROS E METAMORFOSES

Pulsão (regressão) maternal

Elisabete Afonso pode ser considerada o exemplo típico de uma pintora obcecada com o “feminino puro” ancorado no ser. A pulsão (de regressão) maternal é o ponto focal desta pintura. Informada pela subjectividade - no limiar do chamado psiquismo -representação - que nos remete a introjecção do feminino materno primário - esta arte não está desvinculada dos experimentos mentais e estratégias intelectuais - da escuta - da encenação do mundo - o “si-mesmo”.

Fazer (in)atribuível?
O debate sobre os traços dominantes na arte e na escritura actuais mostra a pluralidade das poéticas possíveis. Há, ainda, um facto característico: a pluralização de estilos de vida individuais. As instalações de objectos ou das performances tornam-se obras. Não se assiste à morte da arte: é o fim do regime de objecto. E, se é verdade que a pintura vaporizou-se - passou naturalmente ao estado gasoso - por relação à cultura de massa (comportamentos de base do animal humano), o novo regime da arte - depois dos anos 80 - é, no entanto, o do triunfo da estética. Não há duvida que a arte contemporânea tem algo desse engajamento puro - sem objecto - é sobretudo um “experimento” - processo compartilhado - fazer “(in)atribuível” ?

Esotérico e (in)apreensível
É assim que podemos retornar a aproximação com a pintura de Elisabete Afonso - descobrindo o fulcro de uma poética (in)assimilável - na vizinhança de uma (mundi)vidência feminina que emerge e se faz sentir - onde real, imaginário e simbólico se intersectam. A dialéctica do ocultamento e da visibilidade - que subentende um compromisso com a ordem significante - parece-nos essencial para compreender o seu pendor esotérico e (in)apreensível - a subjectividade - que se descobre ou traz à luz. A “subjectividade” não deve entender-se como uma espécie de eu interno que só há que expressar: donde a importância da "natalidade".

Eros e Psique
Se quisermos traçar esquematicamente um mapa “contextual” - na marca do protótipo feminino - poderíamos dizer, grosso modo, que a arte de Elisabete Afonso é, antes de tudo (e principalmente) o esquadrinhar de uma assinatura-mundo (onde se con-figura a projecção válida ou a projectabilidade). Sobre um pano-de-fundo pulsional - os significantes puros - elementos do simbólico - a sua pintura surge-nos - essencial e constitutivamente confinada ao campo do sensível - o ponto de vista afirmativo do inconsciente (estruturado como uma linguagem). Eros em Psique e Psique envolvendo Eros se cruzam na arte de Elisabete Afonso. Por ora, basta-nos reter a especificidade de uma pintura (que se entre-mostra) enquanto compulsão da repetição - mestria - insigths e pontos cegos - que abarca um “estilo” convincente - sem trégua.

Energética das pulsões


Essa interpelação do corpo libidinal (enquanto demanda irrevogável - devir - “deslocamento”) que configura (em um sentido bastante amplo) uma energética (vicissitude) das pulsões repercute-se nesta pintura - submetida que está à eclosão - travessia para os reinos pós-racionais. Encontramos aqui a ênfase da alteridade, do papel decisivo da diferença sexual, que nos permite afirmar, de modo convincente, que a arte 1) ainda não morreu - tornou-se o éter da vida - fulcro extrapolar do (in)específico - litígio - monólogo - “mise en abyme” - impacto emocional - microcosmos - e ainda que a arte 2) (re)assume, pois, uma prática experimentalista e pluralista - inflexão (in)abarcável - transferencial - irredutível - terapêutica - catarse - objecto de satisfação - um “não-saber”.

Dizer o indizível
Pode-se aventar a hipótese da filosofia que, desde os seus primórdios, consistiu em uma tentativa de dizer o indizível. Assim, para Hilary Lawson, a questão decisiva - de Kant a Wittgenstein - girou essencialmente em torno do paradoxo auto-referencial. Os seus impactos sobre a arte incidem a vários níveis. Mas é precisamente esta presença do ver - cujo modo é o infinitivo - a epifania da visibilidade - que assoma no esforço criativo de Elisabete Afonso. Ecos dessa visibilidade - ver o invisível - transparecem nos seus quadros - onde se agrega trauma e fantasia, amor e desejo, pulsão e sublimação. Convém, no entanto, termos bem presente a nossa (específica) inabilidade de descrever o mundo. Será que a criação, assim, neste contexto, não procura objectivos comunicativos? Até porque não restam dúvidas de que em filosofia como em ciência (e na arte) pensar é criar e criar é problematizar?