23 março 2011

invernia


-A paternidade, longe doutras obrigas materiais, é um vínculo afetivo. A responsabilidade, portanto, de alimentar esse vencelho, estabelecendo umha linguagem compreendida polas partes, que dê vigor a tal nexo dende os primeiros anos, para que com a passagem do tempo se faga indivisível.- Levanto a vista e sinto, pola primeira vez, um frio que penetra por cada físgoa até ferir o osso, projetando um objeto pungente que perfura até a medula.
Dende esta posiçom, a superfície se me mostra baixo a lente dum material gelado que distorce as formas, fazendo-as só perceptíveis polas cores que preservam integramente a sua entidade. –Se som incapaz de perceber umha realidade como esta, concreta e tangível, como hei discernir entre o que é bom ou mau para umha criatura quem de me ceder em depósito, com ingénua confiança, a responsabilidade de toda umha vida? Por que, no momento de estabelecer umha uniom tam íntima, as verdades inalienáveis esgrimidas com firmeza, voltam-se febles e insustentáveis para umha criatura a que ceder a sabedoria de anos de experiência, e sobre a que depositar o legado dumha ética minuciosamente elaborada e amplamente contrastada polos teóricos do pensamento mais refutados? A minha debilidade só pode ser fruito do medo. O medo, que dá significado á verdadeira escravidom. Medo a que umha montanha de preconceitos, amplamente superados por mim como adulto consciente e preceptivamente anti-social, como mostra indubitável de inteligência e superaçom, caiam com gravosa contundência sobre o feble corpo dumha criatura em formaçom. Por que nom guardá-la para mim, fora das gadoupas dumha dura mole de concorrência que com abjetas argúcias tentará aniquilar os méritos e aptitudes, sensíveis e criativos, deste ser?- Volto o rosto cara um lado e o outro. Umha lene película verde cobre as superfícies, enturbando o ambiente com deposiçons finíssimas com que outros, coma mim ou sem semelhança nenhumha, saciam o seu apetite, projetando-se imisericordioso, com afouta determinaçom, sobre as partículas de vida suspendidas no fluído elemento. Com um movimento de contraçom das articulaçons anteriores e posteriores, desloco-me cara umha beira, afastando-me do tumulto. –A alimentaçom é um processo em que o hábito se estabelece como um elemento fundamental. O escasso controlo sobre a cadência e os tempos em tal hábito, denota um descontrolo na personalidade. Umha pueril forma de gozo irracional e incontrolado, consequente dumha desordem afetiva. Este compulsivo referente é o que impera em toda a aprendizagem. Mas o que há da calma, do aproveitamento máximo de cada momento, com independência da sua finalidade última? Nunca a inércia pode ser um método de aprendizagem, nunca as concessons à mediocridade, nunca o mero estímulo visual, nunca essas estrelas do fútil, essa essência do banal, do desprezível. Mais, como escapar? Como se induz cara ao critério a umha mente tam inexperiente?- Umha corrente inesperada, libera a visom de corpos aboiando como inertes, aguardando o tempo que nom passa. Sobre umha rocha, busco umha manifestaçom que clarifique as minhas ideias, umha comunicaçom a um mundo que carece dos mais elementais percetores de estímulos. Exponho-me perante um público ausente, inquirindo umha pergunta após outra, sem aguardar resposta possível, no silêncio balbuciante do meio aquoso. Por riba de mim, sobre a tona gelada, as formas sucedem-se, alheias ao acontecer dum outro mundo tam distante, fora do seu entendimento. Mas, de súpeto, umha turba corrente expulsa.me do meu púlpito.
Tento voltar sobre os meus passos, mas umha força superior impede-mo. A inutilidade dos meus gestos faz com que se esvaeçam os meus folgos, e aos poucos vou perdendo as ânsias, até ficar varado junto a umhas algas que me esfregam as costas e acarinham o meu rosto. A corrente, incessante, semelha querer impedir a minha declaraçom a um mundo ofuscado por um ser que nom se esconde, que vence o temor do diverso, achegando-se, estudando a diferença, para ser mais ele mesmo, mais forte. A defesa infrutuosa da minha integridade praticada polas algas nom impede que um espécime da família dos salmonídeos perpetre o seu mais cruel delito, motivado polo mais primitivo instinto, secionando a moleza do meu corpo, separando-me das minhas valiosas extremidades, surpreendidas pola agressom. É possível que a minha morte seja lei de vida, mas com o meu último alento profiro um reivindicativo adeus que advogue pola independência dum ser tam feble, formoso e ainda... imberbe.