20 abril 2011

Caudal Menstrual - II - O Corpo


As casas desciam longamente pelo trigo, com uma rosa nas mãos a minha mãe falava-me do meu parto e das dores menstruais dos seus olhos.
Com o peito em forma de aquário, segurava como um punho a angústia e os frutos da lua como uma colmeia coberta de olhos e um cair de chuva que soava a uma casa antiga.
Enquanto falava, no seu espesso sexo, um desabrigo abria-se e era como se as ostras  fossem nozes no sótão do céu.
As rosas manchavam-se de outro, numa maquinação sucessiva, o seu rebento transmigrava para uma linha férrea embaciada de simultaneidade e num estio banhado por um rio de madeira e com uma forca de cadáver, saboreávamos a boca do mundo.
Ela tinha a impressão que saía do seu sopro um corpo. E a alba definhava os cabelos numa cor branca  alimentada por um horizonte beijado a fios de ouro.
Sentiu-se um estremecimento. O som percepcionava-se como a queda de um figado, uma árvore rasurou. Abri os neurónios, o corpo, os poros das sementes, as folhas caíram do meu quarto. Um suor escorreu pelas janelas, parti toda a mobília , afugentei o crepúsculo com as mãos em carne-viva, vi o espelho a redobrar-se num sino de folhar de carvão e uma orfandade de seiva vasculhou-me o sangue.
E foi nesse ápice de candeias, de candelabros foscos, iluminados pelos frutos timbrados da lua, que um caudal menstrual abriu-se-me o oceano.
Comento-me no teu corpo.

Carlos Vinagre