17 abril 2011

Diotima Drake


As inevitáveis pernas de Diotima Drake tocam-se em média mais de 13.776 vezes por dia. Diotima usa e abusa das suas pernas nas deslocações que faz e que não faz, mas imagina, meras necessidades que apelam a forças puramente motrizes e aos cabelos secretos das adstringências, mas também quando se senta na cadeira de um café e se levanta depois de ter conversado alguns minutos com a chávena e deixado uma marca de batom na porcelana breve do seu destino. De repente, um cigarro nos seus dedos finos e trémulos e o cruzar e descruzar das pernas transparentes de mérito e de técnica, que ainda mais fazem subir a contagem das vezes em que as pernas de Diotima tocam uma na outra, delirantes, durante um dia inteiro e ainda mais afogam os olhos de quem a olha – e olham-na tão frequentemente – com os olhos oblíquos da anarquia.
De igual forma, quando sente nojo das abas sujas das sanitas públicas e gosta de sentir o cântico alto e solene do mijo com a verticalidade assumida que só um homem, de facto, pode conhecer, Diotima levanta a saia, cria o melhor ângulo para a melhor pontaria possível e faz força nas pernas, muita força nas pernas, até produzir uma sequência reconfortante de pingas de mijo que ela traduz em música minimal, êxtases sincréticos, um teclado de pérolas a despedaçar-se contra a indiferença radical das águas da sanita, bem na boca escura do rosto impávido do funcionalismo: uma capela de silêncio octogonal sem janelas ou superfícies imprevistas, entrecortado entretanto por algumas buzinas abafadas por camadas e camadas de distância e resistências, que, em uníssono, recuperam o murmúrio do café cruel, o suspiro contínuo da ventilação da vida, naquele dia, na casa das máquinas do medo.
Hoje, porém, as exigências da locomoção convidaram as pernas de Diotima a tocarem-se ainda mais vezes e mais perigosamente do que é sabido. Como se quisessem descobrir o fogo e através das vozes infernais da fricção desenhar calor e o calor rapidamente esculpir a sua própria ética abrasiva, as pernas de Diotima suavam gentilmente contra a pontualidade feroz das suas carnes batidas. Hoje, ao sentar-se finalmente na mesa do café, notou que lhe escorriam pelas pernas duas gotas de suor, que transportavam no interior a anarquia suficiente de todos os dias, horas e horas de olhares afogados, os mesmos, os outros, os de toda a gente, cheios de desejo, dioptrias e toxinas. O empregado que normalmente a servia estranhou que, poucos segundos depois de Diotima ter pedido o café servido na mesma chávena de porcelana loquaz e fria, se tivesse levantado e corrido para a casa de banho e batido com a porta com uma violência suspeita e deixasse solto no ar um enxame de pequenos gemidos.