15 abril 2011

O protectorado do sono


Se entrarmos, agora, devagar, no quarto de Darkheim, Julius Dúbios Moebius Darkheim, a escuridão e o silêncio que nos acompanharam já desde o umbral e ao longo do íngreme corredor deixam a sua máscara cair aqui em desvantagem, da mesma forma que uns fios de luz da manhã, violando a persiana, se apressam a recobrar contornos e a dialogar com as formas ofegantes de um corpo verdadeiramente incluído na sua amável extinção.
Ao aproximarmo-nos da cama, vemos o corpo ignóbil e frágil de Darkheim atirado às suas circunstâncias, atravessado pelas flechas da manhã que lhe queimam as pálpebras lacradas com paixão. Vemos a desarrumação fértil dos que se entregam à hipermnésia confabulatória da morte como se fossem funcionários exemplares. Vemos um actor a dormir compulsivamente e à sua volta os lençóis vomitados, restos de alimentos imemoriais, pedaços de animais sagrados, páginas e páginas babadas de alvenaria transcendental.
Sabemos ainda que Darkheim, por exemplo, contratou quem lhe realizasse com propriedade e distinção este nada em que ele nada, imóvel e desterrado, e o mantivesse assim por vários anos, de forma a poder trabalhar mais tempo na sua obra de hipnoplastia reveladora, um palácio no sono e um monumento aos soldados mortos na guerra da solidão. Não sabemos mais nada.
“O protectorado do sono”, foi assim que Julius Dubios Moebius Darkheim quis que fosse denominado o seu território soberano dentro do Estado da Vigília Imperial. É, por isso, com um imenso pesar, que sentimos agora um breve estremecimento e o que poderia ser uma ninhada de distúrbios improváveis debaixo das suas pálpebras, que, trespassadas pelas tropas da Vigília Imperial, se descosessem e revelassem ao homem que dorme em Darkheim Darkheim precisamente acordado, e talvez por isso e pelo susto Darkheim realmente acordasse e provasse a fruta mais escassa da manhã, como o absurdo quando se veste cerimoniosamente para visitar a pobreza da sua condição.

E está tudo dito sobre Darkheim. 

André Domingues