12 abril 2011

Tus ojos se han vuelto mi cenicero/ Os teus olhos tornaram-se o meu cinzeiro


Tus ojos se han vuelto mi cenicero


Días y noches te he escrito, la primera frase era no existe Rusia, París no existe.

Mis manos se vuelven más y más invisibles, besarte es besar una pared en blanco,
y no nos hemos besado.

Miro este cuerpo tan cuerpo, cuántos lo han amado (¿quién podría amar
un cuerpo perdido?), cuántos inviernos prematuros festejaron en su vientre.

Al margen de esta hoja se escribe mi vida, y se asusta y se intenta poesía,
se intenta verso claro que fracasa y se vuelve cuerpo.

Leo el testamento de Kafka como única carta de amor. Pronto en París caerá
la nieve. En Rusia también, otra nieve. Vendrá la primavera por vientre.

Los que me han amado intentarán volver a mí por la fuerza.

Querido, tus ojos se han vuelto mi cenicero. Besarte es besar la desventaja
del tiempo.

Leo el testamento de Kafka, lo único que me queda.
Mientras, regresan tranquilos los que me quieren santa y desnuda.

Natalia Litvinova



Os teus olhos tornaram-se o meu cinzeiro

 Dias e noites te escrevi, a primeira frase era não existe a Rússia, Paris não existe.

As minhas mãos tornam-se cada vez mais invisíveis, beijar-te é beijar uma parede branca,
e não nos beijámos.

Olho este corpo muito corpo, quantos o amaram (quem poderia amar
um corpo perdido?), quantos invernos prematuros festejaram no seu ventre

À margem desta folha se escreve a minha vida, estremecendo-se e tentando-se poesia,
tentando o verso claro que fracassa e se torna corpo.

Leio o testamento de Kafka como única carta de amor. A seguir em Paris cairá
neve. Na Rússia também, outra neve. Chegará a primavera pelo ventre.

Os que me amaram tentarão voltar para mim à força.

Querido, os teus olhos tornaram-se o meu cinzeiro. Beijar-te é beijar a desvantagem
do tempo.

Leio o testamento de Kafka, o único que me resta.
Enquanto regressam tranquilos os que me querem santa e nua


(trad: alberto augusto)