06 maio 2011

O acrobata e a tentativa


1.
O acrobata e a tentativa transcendental sobre a corda circular do tempo

Ecos o dia todo, palavras sem direção, como os braços de shiva, para atingir todos ou atingir ninguém. incômodo, como insetos no copo de leite, revestidos com a espessa nata do último lugar. olhos dentro do santuário, cujo portal é porta de vidro ofuscada pelo branco e lembra sempre que entre as entradas e saídas existe a palidez da incerteza e o risco tem a ver com percepção. dentro, tapetes empoeirados e nos cantos casacos que derretem todos os dias um pouco do bloco sólido de formol que envolve deus, que por sua vez não dança ao ritmo da fumaça om namah shivaya / om namah shivaya a alma inala prostrada diante da parede, formulando elipses para o alcance do nirvana meditacional, ainda que a posição lhe faça recordar castigo ou um cavalo de três patas a espera do sacrifício.

2.
I- retrocesso do ser é acreditar que tudo já foi visto, quando tudo está em constante movimento e a mutabilidade é o moinho.
II- imprimir formas fixas ao objeto é matar, naquele instante, o objeto. é romper seu elo com o mundo. mais do que um estado de animação suspensa, é um empalhamento.
III- um ato fotográfico (ou outra forma de representação) seria o último suspiro da reprodução, a última evolução, ainda que capturada com extrema semelhança.
IV- a lembrança do objeto inanimado seria mais palpável do que o próprio objeto em vida.
V- o que foi confunde-se com o que agora é. real e imaginário.

3.
na casa ao lado 
espíritosinquietos sobem e descem escadas
como se o melhor a fazer fosse
subir e descer escadas

são 3:47
o sono das 3:00 já foi perdido
agora no ponto dos conscientes
espero a dormência dos sentidos

calem esses passos
como calaram as almas dentro da casa escura
amarrem esses pés
como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça
tirem seus valiuns das gavetas
e entrem nas sombras dos cobertores

morfeu, acuda esta gente!
dardos com soníferos no centro das testas
areia movediça ao redor das camas
e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.

4.
eu não acredito na bondade dos anjos
todos parecem bebês de rosemary
o colorido dos vitrais não ameniza
a melancolia assustadora estampada em seus semblantes

no centro da casa
sagrada
o homem abre o livro
sagrado
e recita para si palavras pesadas
como o som de mil crucifixos arremessados ao chão

e eu penso nos pecados mais bizarros
que rondam o confessionário de vozes alteradas
depois aliviadas,
por depositarem nos ombros do representante do pai
a culpa dos seus atos impensados ou dolorosamente calculados

penso nos joelhos esfolados
por baixo das calças poídas dos fiéis fervorosos
que não sentem o gosto de ferro na boca
nem o gosto do sangue no cálice

e os sinos badalam doze vezes pausadas
ensurdecendo meus sonhos sacros
fazendo-me abrir todas as noites os olhos
quando deveriam estar fechados.

camila vardarac