26 maio 2011

presença de josé augusto mourão


O discurso da Igreja é estranho ao nosso corpo e à nossa linguagem.
José Augusto Mourão, in: Maria Estela Guedes,
«Tango Sebastião» e «Ofício das Trevas»

Frei José Augusto morreu no dia 5 deste mês de maio e eu ainda não fiz o luto. Já pedi ao Padre Armando, pároco de Britiande, que rezasse uma missa em sua intenção, não para Deus se apiedar dele e o receber no seu reino, sim para eu assimilar a ideia da sua morte. Há pessoas que sim, desaparecem, vão desaparecendo da lembrança, porque verdadeiramente nunca estiveram presentes na nossa vida. Não é o caso do Zé Augusto. Ele tem uma presença forte na minha vida, por isso é inútil escrever, como escreveu, esta mensagem que recebi no telemóvel, lá pelo fim de abril, primeiros dias de maio: «Eu não vou ver o mail. Vou é morrer.»
O que é que se diz, o que é que se faz, perante uma mensagem destas? O pior da morte não é morrermos, é ficarmos diante de uma muralha sem portas, impotentes, suspensos sobre o abismo das palavras. Na minha impotência, ignorei a informação, perguntando se havia algo de útil para fazer, como rever textos. Já não respondeu, mas acabei ontem, enquanto outros rezavam a missa do 7º dia, de rever as provas do seu caderno de poemas que vai sair na Arte-Livros, de São Paulo, com prefácio meu, «Onde rasgar janelas».
Estar morta não me há de incomodar muito, incomoda-me a impotência face à morte, essa dificuldade em abrir janelas no invivível da vida. Não me lembro a quem respondi, numa entrevista em que perguntavam algo sobre como queria eu morrer - decerto Antônio Abujamra, com as suas «Provocações», na TV Cultura - e eu respondi que me incomodava o incómodo que a nossa morte causa aos outros, por isso, se fosse viável, preferia morrer no cemitério, assim já lá ficava.
Frei José Augusto não teve funeral. É preciso coragem para viver a vida que ele viveu, tomar as decisões que ele tomou.
É um homem do silêncio, que fala pouco (e escreve muito), ouve os outros, e apenas reage, na oralidade, com sentenças que nos dão a volta ao corpo todo, dos neurónios até às tripas. Não me disse nada sobre essa decisão de doar o corpo à ciência (não fomos nós colegas no CICTSUL, Centro votado à História e Filosofia das ciências? Não era ele um especialista em ciências da comunicação?), mas quando me apercebi das consequências do ato foi como se recebesse um curso completo de teologia, e das  restantes -logias todas. Cismei em que há modos de morrer melhores do que no cemitério, que essa é a única janela que certas pessoas, como ele, como eu, podem rasgar na parede da morte. Nada de lutos, nada de funerais, nada de ofícios de corpo presente, nada de flores na campa no Dia de Fiéis Defuntos, nada ramos de plástico debaixo do retrato em idade caquética colado em lápides de pedra, como se nós fôssemos o da idade em que morreu (eu fui uma mulher bela na minha juventude e essa é a imagem que quero que fique), nada de homens à beira do caixão a fazerem vozinhas de falsete como o Papa - não terão eles vergonha na cara, nem ouvidos, para perceberem as tristes figuras que fazem? -, nada de piroseiras, hipocrisias, nada. E sobretudo a recusa de entregar o corpo, a recusa a quem se arroga direitos e poder sobre ele.
Seja lá a quem for: à Igreja, a estes ou àqueles. Nada de vexames, o corpo é soberano, recusa vergar-se às manobras de dominação.
Deus, que não deve ser um tolo, há de ressuscitar-nos no ponto em que mais correspondemos à Sua própria imagem, para glória de todos. Para que desejaria Ele um Jardim do Éden povoado por velhos a cair da tripeça? Escolhamos por isso a mais bela das nossas fotografias para ornamento da campa, assim, quando Deus passar, não se esquecerá de que é essa a imagem com que nos havemos de alegrar todos no dia do Julgamento Final.
Olhai para ele: era um belo homem, mesmo aos sessenta anos. O corpo é elo de ligação entre nós, pertence ao mundo dos vivos, ao sagrado. Não é propriedade da Igreja nem da família e não existe no mundo dos mortos.
Muito forte. Quando o nosso espírito sofre de excesso de independência, quando a alma é livre, quando o pensamento não se agacha às discriminações - quaisquer discriminações, seja a da mulher só numa família de homens e mulheres machistas, que só não a esborracham debaixo das botifarras porque ela quebra os vínculos para escapar a essa demência - quando o pensamento é livre, é bom saber que podemos subtrair o corpo à prepotência de julgamentos e atos oriundos de pessoas e instituições cuja autoridade e competência não reconhecemos. Estou a falar de mim, evidentemente.
Entre a luz e as trevas, entre o excesso e a carência, seres da fronteira. «Caminhantes e fronteiras», a questão dos limites, eis o tema do X Colóquio «Discursos e Práticas Alquímicas», no simbólico lugar do Entroncamento, que adiei. Tema escolhido por ele, antecipando a morte. Havemos de o realizar, talvez no princípio do ano que vem. Será o 10º e último. Sem o Zé Augusto, este colóquio não faz sentido, por isso o 10º e último realizar-se-á em sua homenagem.