12 junho 2011

do melhoramento da ilusão mimética


Roberto Rossellini dizia não perceber por que razão as pessoas olhavam com tanto espanto para uma câmara de filmar. Ninguém se lembraria de ter semelhante atitude perante uma caneta, ou seja, perante o instrumento de trabalho de outro tipo de criador.

Quero acreditar que os palácios perante os quais nos fazemos burros não estão isentos da relatividade que afecta todas as coisas. Se, por exemplo, a escrita nos parece hoje uma coisa francamente banal, já no tempo em que foi inventada, a excitação juvenil perante todos os modelos de iPapiro que iam aparecendo no souk não deve ter sido mansa... É provável que o cinema seja o filho de uma tecnologia que ainda não teve tempo para se vulgarizar, mas é só dar tempo a esse tempo e todas as reputações caem.

De qualquer modo, é inegável que a sétima arte surge inserida no processo de industrialização generalizada do "mundo" (assim mesmo, no sentido metafísico da palavra), e que esse esplendor da técnica tem um significado bastante diferente de tudo o que o precedeu em termos de revolução do "fazer": a tecnologia deixa de servir apenas para transformar esse mundo mas consegue mesmo pôr em causa a sua integridade. Ainda aí estamos!

Consideram-me esquisito por continuar achar que nada é mais belo num ecrã do que o grande plano de um rosto humano. Mas eu, que sempre confundi o cinema com sexo e alma, acho esquisito que haja quem o confunda com explosões e graçolas apropriadas ao Porto Canal. De qualquer modo, é preciso chamar a atenção para o facto de que o esplendor da invenção tecnológica que atravessa toda a história das imagens em movimento, apesar de crescer em sofisticação e barulho, é cada vez menos radical de um ponto de vista ontológico.

A passagem da fotografia ao cinema foi de tal modo revolucionária (este vinha trazer movimento e temporalidade à fotocópia do real) que a continuidade entre as duas formas de registo do mundo se torna contestável. Aliás, a fotografia seguiu o seu caminho próprio e a sua relevância mantém-se hoje perfeitamente autónoma. A sonorização constituiu um novo golpe ao nível da essência do cinema, mas já não se tratava de o inventar a partir do nada, apenas de lhe dar uma nova dimensão. A cor trouxe uma excitação renovada, a despeito de o seu contributo não passar de um melhoramento da ilusão mimética ou de uma aproximação às possibilidades expressivas da pintura.

Se pensarmos retrospectivamente, quase não há filmes relevantes baseados em imagens sem movimento (ainda que aqueles que ficaram célebres valham por muitos), mas ainda hoje há quem ouse fazer cinema mudo e muito, muito mais gente que filma a preto e branco. O 3D que agita muita alma no presente já não traz, como o som, uma nova dimensão, mas a ilusão dessa dimensão. E a passagem de película para o digital (que me parece bem mais importante e pela qual milito) tem sobretudo repercussões económicas, sociais e ecológicas: a câmara de filmar tem a chance de se tornar um instrumento de trabalho tão acessível a todos quanto uma caneta.

Diz-se hoje que, sabendo nós o que sabemos, já não podemos ser marxistas. O que é verdade, ainda que seja também verdade que, sabendo nós o que sabemos, também não poderíamos ser cristãos, capitalistas ou talvez até... humanos. De qualquer modo, eu reutilizo o argumento para defender a ideia de que o gosto pelo cinema é perfeitamente dissociável do fascínio acrítico pela tecnologia.

(Nota: referi-me apenas às mutações mais radicais da tecnologia cinematográfica, mas é claro que houve modificações técnicas mais discretas, como a diminuição do peso da câmara ou o melhoramento da captação sonora em directo, que possibilitaram revoluções formais decisivas. Contudo eu escrevi este post para aludir a transformações ontológicas, e não à evolução formal que o cinema, como qualquer outra arte, sofre.)