25 junho 2011

repassamento ocular


Manhã de pouco movimento. Além de um cardume de música, só restos de pessoas vegetam. O calor ferve. Vou repassando os olhos pelos tentáculos, a praia está habitada sazonalmente por uma estiolamento físico. Quatro horas e pouco faço. Decido aproveitar o tempo, sem pensar que não há fórmula para a vida, que o tempo é um referência, uma variável como outra qualquer e que a causalidade está a escoder-me a visualização das coisas pela sua imagem autêntica. Mesmo assim, vítima de um século mais do que utilitário, abandono-me à cadeia de ideias que a cultura nos transmite e torno-me um pseudo-pragmático.
Escrevo. No sangue das ideias há um fosco candelabro de juízo. A tarde torra no ambiente como uma lente transfiguradora de metais, um universo encadeia milagres no tédio ocupado e útil.
A música continua a estalar.
Repasso-me nestas tardes. Estalo-me como se não houvesse outro momento para estalar. E comendo as estalactites, sorrio com as mãos e tapo a boca com os olhos.
Adoro a existência.

Carlos Vinagre