18 julho 2011

Apoquenta-me aquela estrada no vale.

Já não sinto o prazer da tristeza que por aqui vive e dormir dentro daquele buraco, ali em baixo. É ele o meu nicho a que me recolho neste decrépito solar. Local esse sagrado e tingi-do de lágrimas sob tábuas na hora em que me arrancavam os meus dois filhos. Apoquenta-me aquela estrada no vale. Há dias, quando vontade tenho, ou ela se me vem, sei lá por onde, desço a encosta de balde em riste e nela despejo alguns meus dejectos fedorentos e viscosos. E então aqui de cima vejo aqueles corredores ou alguma mula travessa carregada de feno a patinarem sobre eles, esfrangalhando-se pelas costuras.
Reconheço, só quando me apetece e deixo ao largo as minhas fobias, companheiras da minha lenta degradação, que por ali já fui assapada por um veículo ao despejar o meu interior no pavimento. Tive sorte, não fiquei desfeita de todo, embora tenha uma cova funda na testa que me granjeia dores em dias de nevoeiro. Porém este cone interior na testa compensa-me o vazio que sempre acarinhei na minha massa encefálica. Por vezes lembro-me da pancada e vingo-me. Vou por aquele atalho, entro na ponte ferroviária que cruza por cima da estrada e atiro-lhes pedras, raspanetes e até lhes mostro o cu.


Todos os dias penso ouvir bater as portas. Senti-las abrir apenas com imperceptível desencosto. Fico prenhe de alegria, sinto logo o pulsar dos meus filhos, devem ter uns vinte e tal anos. Esgano-me nas cordas da ânsia por desejar vê-los entrar neste antro e receber beijos bem diferentes daqueles da minha gata, a actual companhia viva na conquista de ratos, os quais lhe roubo dos dentes e como. Já não faço caso das portas; e não sei se é por saber se eles aparecem ou não, será mais pela sugestão que guardo desde criança, quando nessa época desejava entrar no meu quarto cor-de-rosa abarrotado de brinquedos chamativos, a nossa governanta ma franqueava tangendo-me pelos ombros.
Também por elas entra uma aragem, filha da puta. Rói-me os ossos já calcinados por aquelas carradas de medicamentos, parte dos quais naquele tempo a governanta diluía nos seus caldos ferventes e cheirosos e nunca mais sentidos neste gorgomilo, outros de tratamento de choque e ultimamente ouvi-los tombar neste estômago mirrado de fome. Confesso que aquelas portas também me servem. Não que evitem separar-me destas ruínas do exterior, pois na falta de água no meu poço, basta-me o vento estar a Noroeste e logo refresco através dos seus buracos qualquer orifício que me vaza o corpo. Agora nunca saio por elas, é um hábito congelado adquirido desde criança fugindo aos olhos dos meus pais e governanta. Serviam-me de saída; o que resta das janelas desta mansarda, rebolando-me cilindricamente pelo telhado, cujo hábito actualmente ganha origem em momentos que a minha psique não controla os meus intrínsecos comandos. Por isso ainda gosto de esbarrar o corpo no solo e ouvir resmungar as entranhas umas contra as outras, por não se con-terem no seu espaço natural. Há momentos que tenho azar, ora caindo em zonas neutras, a isto alcunho manto de urtigas que ali em baixo crescem, em zonas duras, nas pedras da calçada, ou em tapetes moles, os quais codifico como pes-soas em trânsito e vizinhos a quem não perdoo os seus mexericos.

Virgílio Liquito