31 julho 2011

Artes Performativas O teatro é poesia Conversas com Manuel de Almeida e Sousa



Encontramo-nos na sede da Min-Arifa, um armazém quase vazio com vista para o mar.

- Como definirias tu artes performativas? Pergunto.

- “Essencialmente, a minha formação académica é o teatro”, começa por responder, “acabei o Curso Superior de Teatro e depois fiz uma pós-graduação em Estudos Teatrais na Faculdade de Letras de Lisboa. A partir de aqui vou-me encontrar com a minha cultura base que é o surrealismo e dadaísmo, essencialmente. Fui introduzido nas artes muito cedo, os convívios lisboetas de Café Gelo, Brasileira, Monte Carlo… nos quais me dei com velhos surrealistas que muito me influenciaram nessas estéticas. Esse reencontrar a minha cultura base faz com que pense um bocado sobre o que é o teatro ou para onde poderá ir o teatro através de uma leitura e releitura de grandes poetas da viragem do século e sobretudo a figura de Antonin Artaud”, faz uma pequena pausa, “parece-me que só consigo olhar para o acto de representar se ele for multimodelar, ou seja, se ele se cruzar com as artes plásticas, com a música…”, pára uns segundos, “ tenho três pontos fundamentais no meu conceito teatral: o primeiro é a parte plástica, ou seja, o espaço físico, que depois pode ser manipulado. Por outro lado é a ambiência e o ritmo sonoro, e finalmente, a luz enquanto elemento quase esotérico”.

- E o actor? Interrogo.

-“O actor faz parte da arte plástica na medida em que o corpo funciona já como um objecto artístico. Isto significa que o actor deixa de o ser para passar a ser um performar, ou um actuante, num rito mágico, se o quiserem, esotérico. No fundo abdico do acto de representar em substituição de um agir e de algum exibicionismo corporal”.

- Mas qual é diferença entre representar e performar?

- “Representar no sentido clássico implica logo e à partida o incorporar uma personagem, o performar, ao contrário, procura apenas ser ele e por vezes em busca de um outro eu”.

- Então quer dizer que o teatro procura o outro cá fora ou a partir de fora e o performar procura o outro cá dentro ou a partir de dentro, é isso?

- “É precisamente, de uma forma linear é isso”.

- Então quer dizer que o teatro evoluiu para a performance?

- “Não, o teatro evoluiu até aos nossos dias numa situação normal e tudo o que se fazia nos anos 60, em termos teatrais de vanguarda, hoje provocaria as mesmas reacções de um público ou de um crítico teatral, que provocaram nessa época. Não houve alteração. Nem em termos sociais, quanto mais no teatro. Daí que não há uma evolução directa em relação a esses nomes ou a essas correntes, até porque a performance não é nada de inovador, já se fazia com os dadeistas, já se fazia até antes, na viragem do século XIX. Com isto, quero dizer que o teatro tem muito a aprender com as novas artes às quais se dá o nome de performance, assim como os performares não perderiam nada em se deixar contaminar pelo teatro, sobretudo no que diz respeito à estrutura do espectáculo”, faz uma pequena pausa, “quer o teatro quer o performar poderão encontrar um ponto comum que tem a ver com o regresso ao teatro real, que é, no fundo, o acto ritualista. O acto ritualista perdeu-se por influência da Igreja e de uma ‘ditadura’ da palavra, palavra que coloca o actor como simples mensageiro dessa mesma palavra”.

- Teatro sem palavra?

-“Um teatro com e sem palavras, ou seja, um teatro que cumpra o seu lugar ritualista sem deixar de ser teatro e um teatro que nos ensina a ver teatro incluindo o próprio teatro da vida. O teatro, no fundo, não deixará de ser teatro se não tiver palavra, e continuará a ser teatro com ela.

- Mas o que é que é o teatro?

- “O teatro é um espectáculo. E um espectáculo para ter muito público, isto é o lado mais simples de se explicar o que é o teatro, mas o teatro é também um objecto cultural de importância fundamental. O teatro é uma profissão que exige um rigor e uma pontualidade profundamente intransigentes”.

- Sim Manuel, mas o que é que é o teatro?

- Ele pode ser definido de inúmeras maneiras e o que a História da Arte nos conta não passará da visão histórica instituída. Logo o que é certo ou o que é facto é que o teatro nasce do movimento, por isso, se o movimento é a poesia e o estar parado é a prosa, o teatro é poesia.