11 julho 2011

NA MINHA CASA DE BRANCOS


Na minha casa de brancos
De portas e louças desbotadas
Eu era a negra entre as ovelhinhas parvas
Eu era a negra, a malefícia,
A enferma das sombras
A de dentes reluzindo
o que me era unicamente alvo.

Deixavam-me à porta comendo laranjas
De pés sujos
Contorno marrom nas unhas
Cabelos abandonados
Curvas na neblina ácida em meus olhos
De coxa e diaba.

Minha mãe avisava-me das bruxas
Que trançavam por debaixo em nós
As maçarocas de anteontem,
Cachopas de desdém sublime

Mostrava-me a minha mãe
A minha própria mãe
que me tinha forjado na barriga
Passos rastejantes do outro lado da rua
eu, um caroço de angústias malditas
parido daquele ventre onde nada cabia

E eu via sua roupa escura de pobre e me sentia
Naquela casa de espelhos
Um corpo morto,
Vestígio e peso

Vendo a minha mãe dentro da casa
A me dizer com seus fios dourados a sol
Uma lâmina sem corte
Uma pétala de flor que não viu água
Atada a um cenário de nada e pó
Estridências e rangidos
Porcelana, pano e vidro
Botas brancas sobre o chão pardo
E, em meu rosto, a confusão das mortes vivas.

Tudo era cinza
De respirar o ar negro em meu espírito
na cor da cor da minha pele
vendo sombras
fingindo lentidão nos pensamentos

A única luz que tive foi a de arranjar um espelho
Em que o tempo passado fosse vertido das xícaras
da porcelana

Desejei que ali fossem afogados todos
Os que me vinham passar o cabelo a ferro em brasa
que tinham sucumbido ao corpo de múmia em anos.

Eu corria para o colo das múmias
Esperando a proteção das esferas
O céu
Arranhava com unhas roídas de criança triste
O muro
Da parede cheirava a frio
malévolo como uma ampulheta enrijecida

Ciscos nos meus olhos de noite escura
Lá dentro, a alma costurada com linha amarela
Revirava-se forjando venenos

Eu era a negra entre as flores desmentidas
Era a negra entre as de pupilas verdes
E as verdades dos outros
Tinham-me como abismo

Eu era a negra
Que sou agora, com a cor atrapalhada
De mulata
De minha avó Maria Mulata,
nascida em 1870
única pessoa que tenho por família.

A que vivia longe, já morta há tempos
Deixou-me de herança a sua visão
Terrível das coisas

Na mata,
O negrinho sobre os galhos ameaçava
O sanguanel
O sanguanel era o meu pavor
Igual a mim
Menino e preto
Meu avô que me amava
no fundo de seus olhos reluzentes,
Azuis das tripas transparentes
Ensinou-me um trocadilho:
O que era o seu olho
era a minha pele
e o sangue de minhas irmãs
era breu para mim.

Olhos e cabelos redivivos
Implantados no meu vestido de chita
A pele nascida sem castidade
Dobrada entre as palmas
A bruxa preta para espantar maus espíritos
Eu mesma que me espantava
Curtida contra as paredes disfarçadas
Couro, sol em demasia,
Azul, cinzenta, cortiça,
Era a minha tez
eu era a negra entre os fios dourados
e os panos vastos das cortinas limpas
quem me teria lavado
para poder entrar com os pés na varanda?

Depois eu matei a todos,
Matei-os
Com o formicida dos pensamentos
É só lançar sobre os diabos
Que eles pulam e soçobram
Debaixo desses tapetes de histórias

Esmago-os sem dó todos os dias
Ouço os gritos dos debilitados se afogando.

Helena Schopenhauer Borges