28 agosto 2011

the living room


A insolência não se lembra de ter oferecido à insónia um tratado de insalubridade geral, e a sala é o meu termo, o meu trono, e o meu trauma. A sala reage à minha chegada, com a mentalidade ruidosa das madeiras e os estalidos próprios dos objectos que dormem eternidades. Tudo indica que ainda é pouco para que a miséria seja mítica e descrita com a retórica da sua melhor importância. Mas o silêncio, essa minúscula súplica, inunda a sala de imóveis divergências e fulminados realces. Há também um alfabeto antiquíssimo, cada segundo que passa. A sensação da nudez impassível do indecifrável. Uma monótona e viscosa mastigação. E a aridez máxima dos planos. A tragicómica geometria vagamente descontrolada, a bancarrota da vontade e, no entanto, a minha chegada àquela sala, como se o destino não fosse feito para ser desenhado mas contornado depois de alguém o desenhar.
Na sala, a pobreza age como uma amante. Na sala, a noite veste uma lingerie especial. Na sala a vida vem em itálico, a morte fica sem efeito e a tristeza é servida com champanhe. Na sala, na sala.