31 agosto 2011

os gafanhotos do abismo



nas asas do peremptório abre-se o céu pela boca
nas varandas caem os vidros pelos miolos
assim os gafanhotos
albergam o palpitar das gentes
no indefinível abismo da poeira

a nódoa de tudo quanto existe
na árvore as águias filtram a soleira do uísque
e setembro antecipa-se no vazamento do trovão
uma poltrona surge ao longe nas canárias

a poluição das coisas
no frondescer do universo há o inverno do alternativo
a pairar sobre o corpo-dominó das cidades
e o turismo abeira-se na capilaridade do crepúsculo

âmbar da ambivalência da exortação dos peitos
no cancro da rua há imensas florestas enlameadas pelas suas pegadas
e no sol aberto sobre a noite
os cenários do pós-operatório espreitam como a modernidade
a putrefacção do espírito
no casulo do ventre séptico do inetocável
rostos de maçãs albergadas
sobre as asas peremptórias
da gente do abismo

Carlos Vinagre