24 agosto 2011

Pareidolia


Lembro-me de ser pequeno e ver almas mortas nos realces apócrifos dos cortinados, batalhas nas rachaduras e nas humidades dos tectos, inscrições diabólicas nos nós da madeira dos móveis, e novas possibilidades de vida na sombra cruzada dos objectos que me definiam. O termo “pareidolia” foi o melhor que a ciência encontrou para designar este fenómeno que, ao que parece, oscila entre o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual, uma qualquer sorte de vocação degenerada para vermos no que está aquilo que não está e vice-versa, num interminável jogo de luz e sombra e reflexos alienígenas.
A inocência – é sabido – é uma forma de arte subliminar que nega o mundo para poder subsistir. Nela se confundem e confluem o mais frágil empirismo e a rejeição fervorosa e incauta da queda. A inocência só vê o que quer ver, só ouve o que quer ouvir. Autoproclamada e insincera, a inocência é uma nudez muito íngreme, incapaz de ser vestida pelos melhores designers do evidente.
Um dia, fiquei curado da inocência. Ou assim julguei. Um cortinado era apenas um cortinado, com os seus relevos ridículos. Um tecto manchado era só um tecto manchado. Os nós da madeira, só os nós da madeira, e a sombra cruzada dos objectos, casualidade e antipatia.
Mas mais tarde a doença cumpriu com o que prometera e voltou a visitar-me. Uma pareidolia em segundo ou em terceiro grau começou a assombrar o meu espírito. Foi quando li e compreendi que Pierre Menard era de facto o autor de Dom Quixote e não esse farsante do Cervantes y Saavedra. Foi quando percebi que não era Anna Alkma que amava, mas a bissectriz formada pelo ângulo agudo de sombra e luz que se interpôs entre Anna e eu. Foi quando, na balança atómica do meu umbigo, voltou a pesar mais o aleatório e o significativo, o lúdico, o neurótico e o espiritual. Foi quando, pela primeira vez, fiz amor com a tua forma ausente e parti os espelhos todos do respeito pelo impossível.