22 setembro 2011

O Florir da Madrugada


A fechadura desgastada da tua casa, onde a chave vacila a cada tentativa de abertura do orifício embriagado de azeite. Virar as costas e resistir à tentação de nelas pendurar os olhos, cujas janelas vidradas se ofuscariam sem brilho. Desempenhar um papel na sua mais elevada devoção simulada. Em coma profundo, comprometendo todas as funções vitais. Casaste aos trinta anos, por conveniência, por segurança, por amor?, porque não toleravas mais viver na tua solidão. Ou porque nunca aprendeste a viver a tua solidão. A lua. A lua ergue-se solitária no esplendor do seu brilho. E o sol? Que dizer do sol? Igualmente magnífico. E o amor? Só. Uma palavra. Entre tantas outras. Mas o que a distingue de tantas outras é o excesso de interpretação. Não sei se Susan Sontag alguma vez pensou na contra interpretação do amor? Na contra interpretação da teologia do amor? Abreviar o seu conteúdo para dele retirar a sua essência, o seu corpo mais puro, a livre expressão da natureza das coisas. Dilacerar as cortinas opacas, e avistar aquilo que não tem qualquer intenção, qualquer propósito de pensamento reservado ou oculto. Dois filhos que adoras, e uma mulher que toleras. Por obrigação, por remorsos, por culpa, pelo estatuto social, pelo medo da censura. Pela bestialidade dos sentimentos que golpeiam a vida, erguendo-se até ao último fôlego. Uma gaiola. Uma gaiola onde todos os pássaros cantam. Mas tu não, nunca. Um cárcere saturado de luto pela implosão de todos os sons no teu corpo dormente, encolhido pela alma ausente. O jardim da tua casa cobre-se de um gelo gélido suspenso dos portões lacrados com o clamor da tua voz inarticulada. Os gritos não se soltam com um esforço virtualizado. Continuas a segurar um lenço branco com a tua mão direita, e uma espada de prata com a esquerda, num gesto que não tens coragem para executar, e teimas em omitir. Um dia o telefone tocou. Interrompeste-te. Nesse dia procuraste-me, imploraste, Ensina-me a acordar de manhã, a oferecer ao mundo o maior dos sorrisos, mesmo que trilhe o caminho dos demónios, e habite o lugar daqueles que já não ouvem o coração. Sim, eu estou aqui. Vim do norte, da terra do frio, os Invernos cobertos de mantos brancos. Hoje, os trópicos de fogos abrasadores. Uma vida dupla em permanente ebulição. Dupla na abstração, Dupla no concreto. Talvez por isso me tenha tornado mestre de sorrisos. Cicatrizar as chagas que parecem ser eternas, sem princípio nem fim. Esqueci o princípio, e o fim não consigo avistá-lo. À luz do dia o meu traje oficial, à noite dispo-me de todas as máscaras penduradas de todos os pontos mais altos do meu tronco humano. No meu centro abrigo uma bússola que me indica o caminho para qualquer lugar, para qualquer lugar que seja a minha escolha de pensamento, de ação, quieta, serena. Ao meu lado um homem de feridas abertas, mil queimaduras sem crosta, sem a menor intenção de cobrir os golpes de peles penduradas nas telhas da sua casa. A tua mão verte suor na minha quando te afago o cabelo, e te acaricio o peito. A tua cabeça pesada descansa as tempestades turbulentas nos meus seios, nas minhas coxas a borbulhar, um impulso vital. Ninguém impede que sobrevivas, e vivas a herança do exército de células que aclamam a tua vitória. Saíste das águas cálidas com a tua boca molhada de sensações frescas, estremecendo perdido no sonho do mar cansado, revolto, liberto, por um instante. Só quero conversar, disseste.

Filipa Aranda