26 setembro 2011

Vlad e Muriel

O paradoxo é conhecido. Pode uma força constante e insubestimável suscitar algum tipo de efeito físico num objecto infinitamente inamovível? Vlad e Muriel acreditavam que sim. Estavam espontaneamente perdidos numa floresta de convenções, arame farpado e vigilância sublime, a noite era como um mapa que mudasse ao segundo de rosto, sentido e leituras possíveis, mas alguma coisa os levava a que permanecessem ali, na inexactidão primordial de uma justificação vazia, debaixo de uma queda de água negra formada pela irresolução, pelos temíveis ventos que sopram nos arredores do livre-arbítrio e pela recompensa romântica de se julgarem atravessados pela singularidade de um reino.
Apesar dos limites muito pouco generosos da floresta, o seu desencontro tornou-se rapidamente crónico e era explicado, na época, por uma inevitabilidade reactiva: enquanto Vlad pensava deslocar-se de X para Y, Muriel ficava temporiamente incapaz de imaginar Y e vice-versa, tornando impossível a simultaneidade espacial e a deslocação ainda que microscópica da sua desejada intersecção no permitido.
As horas, os dias, as semanas e os meses passaram e nem Vlad nem Muriel viram mais a luz do dia, nem de si próprios obtiveram o espanto que a visão e o tacto do outro segregam, nem por alguma qualquer probabilidade mínima, num ponto onde o inverosímil negoceia com uma pequena distracção da certeza. Nada. Mas eles continuavam ali. À procura de uma resposta solúvel nos seus zero por cento. A fabricar o veneno e o antídoto mais potentes, as jogadas mais nuas e vestidas, habituados cada vez mais a não serem. Foi quando o paradoxo desapareceu.