17 setembro 2011

Vossas Excrecências

…,Vossas Excelências com maior plenitude. Mas deixemo-nos destes pequenos reparos e vamos ao que interessa.

Nao estamos aqui para ensinar a grunhir, pensar e resolver as questões mais prementes do país. Para isso bastaria da nossa parte aconselhar-vos a encomendar aos países amigos, toneladas e toneladas de rações e farelo, executar gamelas e gamelas, sendo as nossas as modelos, (bem práticas que são) a construir chiqueiros e chiqueiros , etc., etc. Porem, não fazemos Isso, porque vós já construís tudo que nos serve e que, no fundo, é o reflexo da  tecnologia. Mas também não é só por isso tudo que aqui viemos. A vossa conduta, o vosso fedor, a vossa mania de que só a vós compete discutir, apreciar e resolver todas as preocupações da vida animal, vegetal e até mineral, são, pois, em grande parte, o motivo das nossas porcas reflexões, E, também, a vossa porca conduta!

Por isso mesmo aconselhamos que Vossas Excelências grunham a vontade, mas connosco, em leal camaradagem, para que unidos, este Parlamento fique mais representativo, mais sólido, para enfrentarmos então este Pós Guerra que ainda se faz sentir. 

Vamos, pois, em frente orientados pelo vector da concórdia, nós com a vossa lavagem, vós com as nossos enlatados e rojões. Nós com as nossas Influencias genéticas e ranhos, vós com os vossos conceitos enlameados de merda, levantar o pais do descrédito internacional. Nem que seja necessário soltar os porcos do Mar das Caraíbas, serrar o Corno de África, dinamitar o Muro de Berlim, soltar sanguessugas no Canal do Panamá, queimar mais alguns esqueletos proscritos da Inquisição, separar estancadamente as águas dos Oceanos, olear as zonas de fricção do Eixo da Terra, mandar o Cristo embora, aplainar a Pico do Quénia, fazer mamar as chefes dos antagónicos blocos militares, em ritual, no tarugo da paz, plantar vidro e varrer virgindades e os escachados, fundir porcos com humanos, restituir os dentes às galinhas ...

Sr. Presidente, Srs. Deputados, humanos em geral.

Com esta nossa cevada Intervenção, esperamos ter suscitado em Vossas Excelências um apertado e transparente sentimento entre as nossas ideias e as vossas, acerca da Interpretação deste Mundo. E um mundo que nos atira uns contra as outros, e, da nossa parte, inegavelmente confessamos que também temos sido muito maus. Pois claro, temos triturado gigas e gigos de paramécias, moluscos recém-casados, lesmas, lavagem estragada e mesmo merda, a vossa. Por isso mesmo, compreendemos certa falta de qualidade da nossa carne em comparação com as vitelas das vossas vacas preferidas. 

Desculpemo-nos, pois, uns aos outros, sadiamente. Apertemos os nossos tacos de amizade, beijemo-nos longamente perante estas câmaras de televisão, contraindo as nossas mucosas nos vossos lábios de pretensa Ladainha, até nos transformarmos num só porco, para então fazermos frente aos inimigos do nosso sistema politico e económico, Defendamos, também, este regime, este modelo social um pouco despreconceituado, para obtermos um sistema no qual se defenderá intransigentemente a fissuração pelo porco em tudo que existe, e a permeabilidade ao diálogo entre todos nós, os que grunhem neste Parlamento, nos comícios, em conferências de Imprensa, para os moucos deste nosso pais. 

Antes de terminar, não queremos deixar de considerar a humana compreensão de Ernesto Mendonça, uma figura que bem depressa ficará carismática, como seu pai, Geraldo Mendonça, e que se diluíra no Ânus da Hist6ria, como símbolo do entendimento bem descrito na nossa intervenção, rompendo todos os preconceitos e até a moral que sempre o havia norteado. Quanto a nós, estamos convencidos que ele será homem, em saber contribuir patrioticamente com as suas reuniões de prospector de vibrações políticas na gamela onde o deixamos.
Entremos, pois, em férias, com a convicção firme que o Mundo tem os olhos postos em nós e, quanto à nossa parte, teremos os olhos nas gamelas.

No final do inesperado discurso, as palmas soaram então em uníssono, como que um estimulo positivo a semelhantes verdades, umas verdades sem o mínimo de maldade, sem qualquer sombra de pedantismo, umas verdades de porco conscientizadas, num Mundo que lhe era particularmente adverso.

Quanto a Ernesto, coitado, a sua glória não ia muito longe. 

Um dia, quando os porcos cumpriam as suas obrigações, conforme havia sido estabelecido, Ernesto Mendonça e Gertrudes Figueiredo (crédulos no regime) eram encontrados mortos, tombados juntos a gamela, bem agarrados um ao outro e selados pelas suas bocas em jeitos de haverem feito amor.
A morte apanhava assim este politico, na altura em que lhe saía do esófago uma penca que se lhe atravessava na garganta no momento crucial do seu respeitoso orgasmo. E, como é óbvio, Gertrudes morria por tabela, entalada, por querer fazer exultar os seus mexericos de amor.