27 outubro 2011

casa dos pássaros


(…)

AMÉLIA – (…) Todos os dias a Alice mata um pássaro. Ela pensa que eu julgo que eles morrem de morte natural. Faz isso para se vingar.
BERNARDO – Vingar?
AMÉLIA – É para se vingar da morte do marido. Foi uma maneira que ela encontrou para sobreviver à tragédia. Eu acho que ela acredita que deste modo a alma dele se mantém viva, já que o corpo ficou desfeito.
BERNARDO – É uma espécie de pacto.
AMÉLIA – Sim, um ritual. E sabe onde os vai enterrar?
BERNARDO – Imagino que seja no local onde o marido morreu.
AMÉLIA – Não, é isso que é mais estranho. Anda dois quilómetros e vai ao cemitério. Enterra-os devagar na campa sem ninguém ver. Embrulha-os em flores e enterra-os.
BERNARDO – Mas então houve funeral!
AMÉLIA – Claro, o que restava dele foi colocado lá, em campa rasa.
BERNARDO – Que coisa mais insólita!
AMÉLIA – Ela é assim, confunde as pessoas, mas vai ver que se habitua.

Jaime Rocha, A Casa dos Pássaros