18 outubro 2011

par alela



«vou deixar-te levar-me até à fertilidade da destruição.»
anais nin, a casa do incesto.

paralela ao horizonte
a observação da lanterna apaga-se


o pináculo nada mais perfura que o implosivo vazio
a nuvem não é atingida pelo vértice
os pólos binários jazem mudos

o silêncio aparece
separado por membranas que controlam o coração do finito
o ambiente megalítico do abandono

a parede cobre-se de criptogamia na cinzentude
impõe-se uma torre de cânticos litúrgicos incinerados
nesta pansolidão o trabalho público esmaece no seio do universo

a contemplação ociosa abre fendas na muralha histórica
esquecida pela mão do dogma
a serpente metálica ondula ao capricho do vento
o movimento sugere a lembrança de lilith mas ela não se assoma ao adro
sopra o desejo na fujara libidinal das aves
cujo incêndio constrói um sol menor dentro do ventre
paralelo à linha d'água
repuxo interno do pensamento
projecta-se sombra em forma de árvore na alvenaria do olho entreaberto
nua
é invernosa a memória que assombra o espectro

lá dentro um clã de aranhas vestais trama o labirinto do esquecimento
na sua forca invertida
o sino clama pela luz de um raio fulminante
arquitectura imolada pela transgressão dos tempos

cairá a vida do bico de um papa-figos
(pergunto)

cairá

o eco longínquo entra lentamente pelo ouvido
expande-se pelas veias
animado pelo sangue
o coro trágico do grito ergue a revolta das fogueiras
como o cálice da rosa
o corpo guarda a cicatriz herética do crime

a mão de sangue está marcada em todas as portas
delas nasce o povo pequenino

cairá a vida do bico de um papa-figos
(pergunto)
cairá

fátima vale