01 outubro 2011

A propos des lignes


As Linhas Não Existem
de Joana Espain

e então a mãe vem lamber a cidade em rio mais largo que todas as línguas” (pag.19)

Unica Zurn esteve, em vida, um acontecimento revés.
Ao contrário da peste gerada nas últimas décadas, Unica sofria de verdade compulsiva, detonando-se em parências íngremes com Manuel Laranjeira para quem o Suicídio era a redenção moral.
Nalguns delírios da literatura farmacológica, como o Ziprexa, as prescrições indicam “mentira compulsiva”. Os autores de tais literaturas são suficientemente incompetentes e não referem: “resistência à verdade que não existe”. Outra pérola da farmacopeia, o Gamobade, é vendida com um poema clínico a servir de bu(r)la que garante que a solução química presente combate o “atraso mental”.
O ousojecto da Ciência do Meio parece ser o encontramento de uma verdade que não seja pertença de ninguém e onde, do vírus à formatação, do sentimento à emoção e restantes pastas do laptop, haja a passibilidade do Reconhecimento sem náuseas pessoais.

Poderá ser esse o Radão que emana da pedra de Joana Espain: As linhas não existem. A vida, nos corpos atentos, não se conforma com projectos lineares. Assim estas “linhas” iniciam o seu manifesto com o corpo de Emily Dickinson: By Processes of Size/For the Stupendous Vision. (pag. 3), um programa para recuperar todo o miolo invisível da aparência, as dimensões revérberas que o Uno dissimula na reificação de todas as mobilidades de relação. Tal poética do desvendamento – onde se incluem as Recordações – é uma acção de encontro e prospectiva, plasmada, por exemplo, aqui: “quero dar um beijo a um átomo” (pag. 31). Podíamos, como cobertura pictórica deste conjunto de textos, evocar um imenso chão junto ao rio, ao Douro, onde tudo cabe, incluindo o poema “Sentimento de um Ocidental” de Cesário Verde (pag.19). Tal chão não se apresenta pródigo para os imobiliaristas: concatena, antes, uma ecologia que, podendo trasladar-se das comunidades de Llansol, acrescenta outros poros, da geometria ao movimento: “a minha explicação era verde e o tempo comia milhares de bailarinos” (pag. 13) em cumplicidade com o Nietzsche que falava da vida como um "baile da gravidade".

Talvez o papel em branco seja cavalinho e tudo se palinceste com o uso termodinâmico de um tira-linhas.