14 novembro 2011

Acerca de "O Rochedo que Chorou"

Acerca de O Rochedo que Chorou, de João Pedro Porto
por Fernando Martinho Guimarães

O livro O Rochedo que Chorou é a estreia literária de João Pedro Porto. Estreia em formato de volume, entenda-se. Enquanto novela ou romance, que para o caso não é relevante fazer a destrinça, o livro que hoje se lança tem algumas particularidades que importa sublinhar. Desde logo, a simbiose entre três registos artísticos que obrigam, na sua leitura, a reter e a suster descontinuidades, ruturas e permanentes reajustamentos interpretativos, tanto na sua ordenação formal como na sustentação simbólico-imaginária a partir da qual João Pedro Porto constrói o seu universo ficcional: a prosa, a poesia e a expressão gráfico-pictórica dos desenhos que pontuam a narrativa.
A abrir o livro temos duas advertências. Melhor: duas remetências. O poema «Ne quid nimis» remete, no seu primeiro verso, para o título do livro, ao afirmar que «a mentira está no título». A «nota prévia», por sua vez, remete para alguns dos fatores que estariam na origem do livro, fatores que são, a um tempo, objetivos e subjetivos. São eles a prática clínica, a psicoterapia, com todas as vivências fantasmáticas a ela associadas e o desejo de ficção que, na escrita, ardilosamente se propõe como ficção do desejo. A benevolência de que a nota prévia dá conta presta-se demasiado facilmente – e por isso devemos desconfiar –, à artimanha bem psicanalítica do jogo de luz e sombra do abismo interpretativo. A imagem freudiana do rochedo, obstáculo insuperável à interpretação psicanalítica e que ameaça a terapia a tornar-se um processo interminável, deriva, no livro de João Pedro Porto, para promessa de redenção. Porque um rochedo é também ilha e ancoradouro, cais de partidas e de chegadas, porto seguro ou permanente inquietude face a lugares nos quais projetamos salvíficas miragens de escapismos, quer essa miragem se chame Ela, esse inominado que  Edmundo Zatara, personagem principal do livro, constantemente conjura, ou a Capital, onde as primaveras que chegam nunca se parecem com as que em setembro havíamos sonhado. Em todo o caso, ou em qualquer dos casos, é a figura de Sísifo, com o seu rochedo que sobe e desce, que melhor se cola à personagem de Edmundo Zatara.
Insiste João Pedro Porto, ao longo deste seu livro, por um sortilégio da natureza relacional da terapia e da vida, no verso de John Domne de que nenhum homem é uma ilha. Edmundo Zatara confirma e desmente esta asserção. Na genuína empatia que Zatara terapeuta estabelece na relação com os seus pacientes reconhecemos a promessa da superação da insularidade existencial em que os indivíduos estão mergulhados. Mas O Rochedo que Chorou não é sobre isso ou não é só isso. Porque, pelo artifício das constantes reminiscências sensitivas e meditativas, saudosas ou projetivas, ou ainda pela sistemática convocação de múltiplas vozes da cultura – de Antero a Goddard, de Orson Welles a Franz Kafka –, João Pedro Porto soube recobrir as suas personagens da bruma que associamos à ilha. Nenhum homem é uma ilha. Pois não – a ilha é que é sempre connosco. À parte isso, sobra-nos, como diz o autor a certa altura, a propósito de O Velho e o Mar de Hemingway, sonhar com leões no fim da jornada.
            Mesmo no deserto, para nos socorrermos da imagem bíblica, do rochedo pode brotar a água. É assim que algumas coisas o leitor pode tomar como asseguradas: que algo se conta após a nota prévia e que, amparado o bastante no que o senso comum nos basta no que diz respeito à terapia, o que é contado deve ter um desfecho. Descontado o desassossego sobre a boa ou má sorte desse desfecho, que esse é o sossego que o leitor deve buscar por desejo seu, o autor de O Rochedo que Chorou avisa-nos que «a mentira está no título», no poema – relembra-se –, justamente intitulado «Ne quid nimis». Nada deve haver em excesso e o que é essencial é o que importa. O gume da navalha de Ockam, a que a expressão latina se reporta, é o que neste caso importa. A ficção tem isto de comum com a terapia – a verdade ou a demanda da verdade. Como nos diz o autor na nota prévia, «é na justeza que se ganha o privilégio da liberdade e da liberdade nutre-se a arte e a expressão do Homem. Logo, em jeito de retribuição, a arte deve submeter-se liberalmente à busca pela verdade». Que a terapia e a expressão artística tenham, muitas vezes, caminhos incomuns para chegar ao que lhes é comum, é assunto que devemos deixar para os psicanalistas. Está bem, condescenda-se, para os críticos também!
Constituído de três partes e um epílogo, Coda, Da Capo e Actio, o livro de João Pedro Porto segue as atribulações de um psicoterapeuta, Edmundo Zatara, consigo mesmo, com os outros e com o mundo, que é aqui a Ilha, um aquém e um além do mundo. Como que a dar cumprimento ao obituário da personagem, segundo o qual Edmundo Zatara fora alguém que tinha vivido ao contrário, o leitor percebe que pode também fazer o mesmo. Essa é uma suspeita que nos assalta desde o início. Com efeito, Coda, a primeira parte do livro, corresponde, na linguagem musical, à secção final de um movimento, ao epílogo. Por sua vez, a segunda parte, Da Capo, designa o dispositivo usado para encurtar as cordas de um instrumento musical, de maneira a tornar as notas mais agudas. E a terceira parte, Actio, corresponde à pronunciação, segundo o esquema retórico.
Diz-nos a nota prévia que Edmundo Zatara não é um avatar, nem sequer um alter-ego do autor. Tatuagem sem corpo, o descrito que pelas palavras é inscrito expulsa o autor para o silêncio de si mesmo. Torna-se proscrito. Em quarentena, o autor coloca-se entre parêntesis, em estado comatoso; ou num pelotão de fuzilamento. É assim que o escrito se expõe ao sacrifício. Não admira que a psicanálise e a literatura tenham desenvolvido um fascínio mútuo. A composição das palavras tem sempre alguma coisa de decomposição. Reveladas as entranhas, pomo-nos a falar. Quer dizer, alguma coisa fala por nós ou através de nós. Nisto, o escritor e o psicoterapeuta assemelham-se ao arúspice romano. Nas vísceras, na alegoria da pele, pode ler-se o futuro. Entenda-se: a promessa de futuro só é possível se, de algum modo, o passado for apreensível. E compreensível. Quando Edmundo Zatara invoca a sua infância e as sensações primevas a ela associadas, ou quando usa truques de prestidigitador na sua prática clínica, é por um desejo de futuro que o faz.
Não se trata, por isso, de uma solidão sem remédio. As vivências de Zatara, dentro e fora da clínica que tem nome da padroeira dos psicoterapeutas, Santa Brígida, são, na realidade, convivências, para as quais somos convidados, como cúmplices.
Porque a solidão consiste em estarmos acompanhados do que não está ou de quem não está. E João Pedro Porto acompanha-se bem neste livro. As invocações culturais, da literatura ao cinema, dos artefactos técnicos – com as suas especificações pormenorizadas («O Yankee Cliper da Pan Am», «O Boeing (…) com os motores Cyclone», «Nykon S3M», etc.) –, aos coloquialismos avocados ao texto – «ladrão que rouba a ladrão», « mais vale sozinho que mal acompanhado», «longe dos olhos, longe do coração», etc. –, ou as provocações lúdicas, simultaneamente eufóricas e disfóricas, das referências pictóricas presentes nos desenhos, revelam-nos que no autor de O Rochedo que Chorou se encontra conteúdo e engenho literário capazes de provocar no leitor a aderência a um imaginário psicológico e cultural.
Mesmo quando se trata da descrição dos transtornos psíquicos com que, na sua qualidade de terapeuta, a personagem principal se vê confrontada, a correnteza da escrita de João Pedro Porto dá-nos uma visão desassombrada da condição humana. Cometas de um mundo sem destino fixado, as personagens que povoam o universo ficcional de O Rochedo que Chorou procuram como nós, seus leitores atuais ou potenciais, o seu justo lugar na ordem do mundo. Nem que para isso seja necessário tomar em consideração a existência de um titereiro, de um Deus ex machina, esse grande manipulador.
No desenho que está na capa, encontramos a sinopse do livro. No tronco excresce tudo o que na vida cabe. A beleza personificada na bailarina – Ela, na trama do livro –, é uma possibilidade que pode brotar da desolação. E o posicionamento da figura em relação ao transeunte que para algum lado parece dirigir-se, indicia desencontros e afastamentos, excentricidades e expulsões – de si a si e de si face ao mundo. Dos ramos folhados, do lado do transeunte, pendem e tombam olhos. No chão, um espelho de água ou um ovo com seu núcleo de gema nítido – uma ilha, portanto. Mise-en-abyme dos enlaces e desenlaces que se vão tecendo ao longo do livro, reconhecemos, na figuração paratextual da capa, a síntese especular do universo ficcional criado por João Pedro Porto. Reconhecemos e reconhecemo-nos nela.
Regressado à nota prévia, resta-me apetecer que esse reconhecimento aconteça na companhia de um «café sombrio e moderadamente acidifico», como nos propõe o autor.

Fernando Martinho Guimarães
Ponta Delgada, novembro de 2011.