15 novembro 2011

cair dos corpos sobre o mundo

a aparência é quando deixamos de existir
num fosco ciúme do mundo
as nádegas do mar são as nossas quiméricas mãos do divino
na indefinição escolástica da vida:
a justiça é a hospitalar repartição entre homens

tenho muita desconfiança de mim
que horror esperar por um quadro dos meus olhos
a radiação queima e a fotografia tão somente raspa a epiderme da alma
num transporte de sons mudos pelos alvéolos do sono

o esquecimento do nosso sorriso:
abro frequentemente a minha janela
espero alguma confusão, um sótão com uma cave escondida pelo sofá
teias de aranha, um timbre de bolor e a chuva a bater pelo arvoredo
pelo quintal da infância, um corpo descolorado e desconforme com o bater
ríspido da luz e do coração
só encontro a desilusão, a confusão de ver o frio a trepar pelas eras
e o fim da estrada estreitada pela caveira de água
e a criança ao constatar a insolvência de si
a trancar a porta com o ar dos pulmões
e a circonavegar os olhos

esta é a língua a enrolar-se na boca - na saliva da tristeza -
e a melancolia do cair dos pêssegos
nas cerejas virgens a escapar como doentes
no cair do corpos sobre o mundo


carlos vinagre