16 dezembro 2011

Casas mesquinhas

Há mais de três dias que Mauro Rubinstein não sai do quarto. Tudo começou com a leitura de um texto sobre a existência de “casas mesquinhas”, que Julio Ramón Ribeyro incluiu nas suas “Prosas Apátridas”. Nesse texto, Rybeiro sugere que certas casas não proporcionam o conforto intuitivo que todos necessitamos, mas, muito pelo contrário, acentuam a sua hostilidade funcional e exasperam uma espécie de luto prévio consignado a quem nelas se demorar e ousar estabelecer um qualquer pacto de paz ou vínculo de intimidade. Depois de ler e reler o texto de Rybeiro, como um manual de iniciação ao descalabro, um micro-cataclismo, desencadeado pela mais desabrida mistificação, irrompeu numa sala escura do reino de Rubinstein, situada algures num enclave do seu cérebro extremamente maleável à superstição.
Algumas horas depois, imobilizado ainda pela noite escura da cogitação e dos estragos, Rubinstein começa a recordar outros exemplos de casas mesquinhas na literatura mundial. Alguns anos antes de Rybeiro, Cortázar tinha já escrito aquele que foi considerado por muitos o primeiro conto publicado do autor de Rayuela: Casa Tomada. Este conto é talvez aquele em que o argentino mais parisiense de sempre melhor soube investir na questão fantasmática e injectar-lhe as sementes da paranóia, construindo mesmo um caso clínico complexo de folie-a-deux, tal como vem descrita nos mais modernos compêndios de psiquiatria.
No texto de Cortázar, dois irmãos, que parecem perfazer o reflexo perdido de outro par de irmãos famoso, Elisabeth e Paul, as crianças terríveis da novela homónima de Cocteau (e que Rubinstein irá resgatar mais tarde), herdam uma casa tão mesquinha, que até está apetrechada com um misterioso mecanismo de manifestar o seu desagrado e incitar a expulsão. O leitor desconhece que forças são essas que aquela casa tem. Não há a mínima indicação de que se trate de uma imposição extraterrestre, da presença de fantasmas de antigos inquilinos, de personificação paródica e abusiva da casa enquanto personagem ou ente, de qualquer outra estratégia de diluição fantasista ou lunática. Há, isso sim, uma tensão paralisante que nos é contagiada pelos protagonistas, até por fim a expulsão completa dos dois vencer os seus e os nossos medos mais graves, para segundos depois voltarmos a suar e a tremer, desta vez de afinidade psicótica, mórbida identificação e vácuo.
Persistindo avidamente pelos caminhos trilhados pela afinidade, a identificação e o vácuo, hoje de manhã Mauro Rubinstein deu por si a revisitar o quarto do homem que dorme no romance de Perec, como mais um paradigma de uma “casa mesquinha”, e pela primeira vez teve a sensação de que nem todos os instrumentos de expulsão de uma casa são iguais. Há casas que nos expulsam para dentro delas, fechando-nos numa repartição abandonada, fazendo-nos reféns mais ou menos voluntários da sua desonestidade crucial. E suspeitando que talvez houvesse uma espécie de festa clandestina no resto da casa sem o seu consentimento ou participação, Rubinstein levantou-se da cama, calçou os chinelos, dirigiu-se à porta fechada do quarto e quando a abriu verificou que o resto da casa tinha sido expulsado pela sua própria expulsão.