27 dezembro 2011

"Habemus papam" - Nanni Moretti

(O segundo parágrafo do presente post tentará ser algo morettiano; mas como eu não sou o Moretti e ninguém pode ser quem não é, sair-me-á com toda a certeza um parágrafo simplista e até demagógico, pelo qual adianto desde já as minhas desculpas ao leitor)

A história que toda a arte sofre deve a sua configuração tanto ao progresso que experiência e pensamento conjugam numa impressão-de-dialética, como à casualidade com que os homens sempre remam a favor ou contra a corrente do tempo. Mas como ninguém empresta relevância a este último elemento da equação, e porque moda e modernidade se tendem a confundir nos corações frágeis, a vanguarda toma sempre um certo ar de censura para com tudo o que não se escreva com o lápis azul do momento. Por vezes com razão (o bolor está por todo o lado). Outras vezes não.

Aquele cinema contemporâneo que vai sendo objeto de consagração crítica (e de ameaça de institucionalização histórica) parece auferir o seu prestígio com base em três critérios: ascetismo (herdado de Dreyer e Bresson), violência gráfica (a tradição americana) e, acredite-se ou não, excentricidade (ou talvez deva dizer "esquisitice", para não ofender a brava ética daqueles que se mantêm fiéis a si mesmos). Claro que há excelentes exemplos de gente que trabalha bem esses pressupostos (Albert Serra, Park Chan-Wook ou David Cronenberg, respetivamente), mas a verdade é que, hoje em dia, é quase impossível ir ver um grande filme no qual se possa assistir a uma boa conversa, a um momento de prazer genuíno, a uma gargalhada, a um beijo terno, a um jogo de futebol, a uma dança despretensiosa, a qualquer coisa que nos faça lembrar a dimensão humana em toda a sua ausência de esplendor positivo ou negativo. A vida sem merdas, como se contemplava no cinema de Charles Chaplin, de Jean Renoir, de John Ford, ou (sim, sim!) na Nouvelle Vague francesa. Nunca me esquecerei da cena hilariante em que, num dos seus filmes, Nanni Moretti inferniza um crítico de cinema no seu leito de morte por este ter tecido elogios insensatos a "Henry: portrait of a serial killer".

Moretti não quer, portanto, ser o melhor cineasta (il più bravo), mas a sua menoridade indiscutível permite-lhe, em "Habemus papam", resolver o dilema metafísico que o escritor Herman Melville deixara em aberto (em ferida aberta) nas suas duas obras fundamentais: "Moby Dick" e "Bartleby, the scrivener". Apesar de, com toda a evidência, o realizador não ser um homem de fé, ele respeita o facto de que, para certos homens, Deus possa tomar a forma de uma intervenção transcendente neste nosso mundo Aquém. O presente à Igreja Católica que esta obra constitui (presente imerecido, como diz o autor, e eu concordo com ele) reside precisamente nisto: se um homem sente que foi na verdade escolhido por Deus, o seu primeiro passo de profunda fé é a imediata abdicação de todo o poder. A maior ambição confunde-se assim com a maior recusa de qualquer gesto de sobranceria épica. O cristão é aquele que simplesmente quer andar no meio dos outros homens.

O filme afigurou-se-me algo mágico, na medida em que o cineasta propõe uma hipótese histórica de uma grandeza burlesca (se bem que nunca faça o argumento entrar num absurdo buñueliano - como disse, Moretti é um autor menor) e, ao mesmo tempo, evita toda a atitude, que aqui seria espúria, de anti-clericalismo. É claro que ele sabe que os cardeais não têm a candura com que são representados em "Habemus papam" (uma coisa é Rossellini figurar a lenda franciscana com uma tonalidade infantil, outra será construir uma imagem edulcorada dos filhos da puta do Vaticano), mas a bonomia do tom do filme é essencial para que o ateu mostre que baixou as armas, pelo menos durante um momento, e está a revelar ao seu opositor qual é a verdadeira dimensão de uma ética política. Sem cinismo nem ironia de nenhuma espécie.

Claro que a obra não é tão pouco negra quanto parece. Note-se como a frustração parece ser a tónica da sociedade presente: não é só o papa eleito que gostaria de ter sido ator, também o psicanalista é um frustrado do voleibol. O próprio facto de o teatro se apresentar como a forma da verdadeira vida (o que é uma herança bergmaniana) tem o seu corolário sinistro na figura do ator enlouquecido, que pode valer quase como sinédoque do estado do mundo. De qualquer modo, "A gaivota" de Tchékhov (citada no filme) não dá uma imagem tranquila nem do teatro nem da vida.

A fita é ainda uma homenagem profunda a Michel Piccoli, que poderia ser quase um papa do cinema. Ao representar o papel de um homem que deixou de ser ator para se tornar padre, ele transmite aqui uma espécie de ética do intérprete, aquele que deve abandonar as características superficiais do seu métier (carreira, aprendizagem) para se fundir por completo no destino de um personagem. Ora, não está esta forma de abdicação em sintonia profunda com a espiritualidade de "Habemus papam"?