29 dezembro 2011

O vampiro sublimado


Nunca durmo de luz apagada. A escuridão total envenena-me. Acordo naturalmente com o aplauso do sol nos dias mais nítidos. Ou então, com a luminosidade triste que a chuva costuma injectar entre os vidros da janela e a virtude da persiana partida. Acordo com a cura do dia, digamos assim, entregue à normalidade e à reconciliação. Depois, desligo a luz do candeeiro e faço as minhas rotinas.
Mas esta noite faltou a luz. Já tinha acontecido ter faltado a luz durante a noite, enquanto eu estava a dormir, mas a Lua estava de bom humor e eu talvez tivesse mais clorofila. Lembro-me que acordei, olhei para o relógio e fui às apalpadelas até à varanda, completamente nu, para receber a única fonte de luz disponível e esperar pelo confortante romper do dia.
Mas esta noite, quando faltou a luz, a lua tinha migrado para outra galáxia. Valeu-me o jogo estúpido de uma caixa de fósforos no fim, operação vagamente contrariada pela humidade e pelos meus gestos entorpecidos, depois a chama do fogão a gás, na ausência de velas na casa, e, desidratado de luz, esperar pelo imenso dia seguinte.
Tenho a certeza que haverá uma outra noite em que a luz irá faltar. A Lua terá migrado novamente para outra galáxia. E nem sequer um único fósforo encharcado para conter momentaneamente a esperança eu irei ter para acender o fogão a gás, contemplar de perto a sua chama e, desidratado de luz, esperar a primeira ração de energia. "Nessa noite", diz o meu médico, "experimente desvincular um espelho da fronteira que o protege dos países bárbaros da realidade irreflectida, depois encha a banheira, ponha a flutuar o espelho à tona da água e salte para ele de uma altura considerável, vai ver que a luz, mais cedo ou mais tarde, aparece".