25 dezembro 2011

"SCINTILLA ANIMAE"

“Saltus Sublimis”

Teremos de admitir a hipótese de incluir Alma (Psichê) e Amor (Eros) numa única “mot (palavra) valise”. O mito de Psichê narrado no livro O “Asno de Ouro” de Apuleio (125-170 d.c.) - refere-se justamente a uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Chegamos, aqui, à questão de Eros em Psichê e Psichê em Eros - o Jogo e a Criação - o “Saltus Sublimis”. Daí decorre a Escrita do “Caos-Cosmo” - ainda uma vez “Psi”-"Emersa" no “Dictamen Obscuro”. A assinatura do Mundo - Eros - o seu “Semi-Dizer” - “apex mentis” ou - no dizer de Mestre Eckart – “scintilla animae”.

Gnosis

Podemos fixar a nossa atenção, por um momento, no processo descrito como exploração da alma (psichê) que se tornou explicitamente - no contexto do ensinamento gnóstico - uma demanda espiritual-religiosa. Analisa-se ou concebe-se o nomear adâmico -remetendo ao saber cabalístico - o corpo e a voz associada à terra - as palavras não-escritas. Considerando, portanto, a prossecução do "auto-conhecimento" (enquanto chave -directa ou indirecta - da compreensão das verdades universais - da palavra perdida - e que permanece representada pela "intuição"). Mas (seja qual for o nosso caminho) a via solitária e interior da "gnosis" envolve - aparentemente - o reconhecimento das "forças alucinatórias" do conjunto da fé que implica o "divino" - a demonologia das origens , "satã".

Religião da natureza e da salvação

Trata-se, portanto, de analisar aqui o que há de típico no significado da adoração ou o ateísmo da revolta (num tempo em que a religião - à sua maneira - se metamorfoseou progressivamente em "ética"). A todo o instante perguntamo-nos se é equívoco referir o duplo paralelismo entre a religião e o erotismo, inclusive - como tenta mostrar Walter Schubart - o da continuidade entre o eros procriador e o êxtasse criador, e da dialéctica do eros redentor e da religião da salvação . Podemos analisar aqui o que há de tensional - círculo vicioso - na religião da natureza (centrada no parto e na maternidade através da devoção- criação) com a religião da salvação (incorporando a criatura separada do seio materno e, no caso, remetendo-nos à nostalgia da origem).

"Ubíquo vento", ruach

O papel primordial, na mística judaica, da vida sensível - a criação (poiesis) comum à divindade e ao homem - o fulcro simultâneo do humano como o mais-do-que-humano - revela-se claramente ainda maior, se se considera a importância da hipóstase feminil de Deus (schekkiná). Poderemos distinguir de modo preliminar, no modelo cabalístico, a criação, revelação e providência, ou - como propõe Moshe Idel - os vasos que medeiam a presença do divino nos domínios do extradivino. No "Zohar - O Livro do Esplendor" - chama-se a atenção - com toda a evidência - para o facto de a união entre os humanos e Deus ser melhor efectuada por meio da "respiração". Aceita-se, pois, que "o sopro de Deus" impregna toda a natureza. Pode-se mesmo dizer que é o "ubíquo vento" ou o "espírito" - "ruach" - que dá vida ao mundo sensível. De notar que a cabala - como anota Maurice Ruben Hayoun - pretende ser simultâneamente uma física (poética) e uma metafísica: esta visão do universo concebe seres vivos como membros do cosmos.

Absolutização do signo

Poder-se-ia aceitar primeiro e em maior grau a noção revelatória da poesia. Pela sua natureza é ao mesmo tempo absolutização do signo e o esplendor do significado. Bastará falar dela aqui enquanto totalização da predicação. Será útil que nos detenhamos num ponto: a vida escrita (para invocar os impasses da letra e, por assim dizer, as projecções do insconsciente). Ou de outro modo: a poesia como particular reflexão da linguagem sobre si mesma (enquanto contra-discurso, an- arquía, sacralidade, opacidade ?).

Epifania da visibilidade

Sublinhe-se que quando falámos da tessitura simbólica do mundo nos referimos, em princípio, à sua pluralidade fenoménica. Dir-se-á que toda a manifestação - todo o sistema na sua complexidade - comporta um triplo aspecto: macrofísico, biológico e quântico (microfísico e psíquico). Levanta-se então o problema da univocidade lógica que não se põe ao poeta: já o dissemos. Vamos, por um momento, admitir que a sua voz torna-se oblíqua, isto é, assumpção "ex-cêntrica". "O seu modo - retomando a tese de Geofrey Hartman - é o infinito. Cada estrofe sugere uma etapa que nunca se atinge - a da epifania da visibilidade".