18 dezembro 2011

tristes tristículos

O nosso membro está morto; sucumbiu após a chegada do prazer, a saciedade da paixão e a emissão do esperma! O próprio membro, saindo precipitadamente da vulva, tenta manter a cabeça erguida, mas ela afunda-se mole e inerte. Os testículos repetem: “O nosso irmão está morto! O nosso irmão está morto!”.
em jardim das delícias, xeique nefzaui

Toda a vida me encarreguei de acumular sangue no frasco que é o meu corpo. Para o derramar para lado algum quando a ansiedade da morte for superior à minha. Todavia por vezes pingo. Tempestivas as gotas triunfais do neutro que albergo no bolso das ancas. O meu sangue não será da terra.
Quando não me saio gravitam-me nas órbitas as esferas da arritmia da íris. Porque não me vejo. Porque não me sou visto. E sempre que seguro os olhos sem pupilas com arames presos às pestanas lavo as unhas da carne. Se existe aguaceiro. Nessas encorrilhas não me murcham as flores brancas que comi embora não me tenham digerido. Mas também não se germinam. As outras não se sabem que existem.
Do cimo de uma nuvem de lençóis vejo chuvas das folhas secas entre os dedos que se sentem de ferro apontados aos olhos. Não pestanejo por entre a água que me escorre para os neurónios quando clamam ferrugem. Dessas vezes não me aponto como estatística sempre que tiro uma senha. Emolduro-a com palitos usados. E desenho uma gaivota morta entre os escombros da galeria de imagens que nunca imaginei. Pinto-me assim com traços de catapulta sem asas nas molduras nuas.
E não me satisfaz a sede. Preciso do que beber sem liquefacções. E nesse momento está longe. Entre a chama de uma perna e de uma outra. Cruzam-se perante a solidificação da labareda no centro da minha cabeça. Gemo sem saber ouvir. Assobio mas não me ouço. Não sei assobiar.
Entre tais tentativas de voo levo com a realidade de choque feita cabelos ao vento.
E na azáfama inerte do impulso espeto uma palhinha num vaso de flores murchas que já não eram brancas por nunca o terem sido esperando chupar a libido. Chupa-me. E não me venho. Não me chego. Concluia então que a terra me expulsara pela fenda cósmica de onde a gravidade seguinte seria sempre para o estado inferior. Entre o sangue. Já não me sabia germinar entre o que não tinha. Mas ousei por vezes. Ousei por vezes.
Derramava verbos escuros em sémen incolor por o não ver pela garganta abaixo enquanto pensava que a lua é quase branca. Mesmo assim não me branqueava. Já os brônquios me queimavam os pulmões pelas pontas. Esfumaçava as antropofagias que não me aprazem. E de tudo o que não se passa na alfandega da goela que rosna ao ouvido a independência.
Escuto pardais que encarnam a sirene. Não bailo. Não me sei bailar. Sinto os sepulcros pulsarem nas artérias. E olho os pulsos. Gesticulo o impermeável no ventre da folha branca com as lâminas da tinta. Dou sangue que se não vê. Pulsará?
Passo serotonina no ralador para a digerir com salada temperada a pétalas. Não clamo por ela. Não é uma ópera. É uma inoperância. Rodopio a língua entre a voz imersa tentando apagar a secura que me greta nos lábios descarnados. As vulvas na boca não humidificam por si. Encarno a humidade interna do útero que pinga o fumo sináptico. Sem tempero. Desta vez.
E sinto a erecção da poética entre as roldanas da criação.
Prefiro não ver a luz. Não me fere. É uma cura olímpica. Desembainho os dedos para o duelo da fricção. Friccionas-me. Emano o caule entre polpas de nádegas que não fazem falecer o tristículo. Ficou? Ficas? Entreabro os ouvidos deixando escorrer mel para o cérebro. Dilato a musculidade anal na presença do ferrão. Queres-me colmeia sem zumbidos. Adocica-se a temperança na penetração pendular.
Compulsiono-me na absoluta alquimia dos sumos de hormonas. Um ente bipolar. Mas qual pólo? Abafo o silêncio com o borbulhar das formas dimanadas das pontas dos dedos que me caem no outono. Espirram entre a escuridade dos traços imperfeitos feitos pela lâmina que dança entre a visão cortada. Vejo o duplo que me possui pelas entranhas onde a fronteira ruiu. Quimera de um sólido cerrado que se ejaculava para dentro. Para a implosão. Para a nudez dos trajes de pele límpida à navalha.
Porque a pele por vezes está infantil. Sem exclamação. Sem erecções de pilosidade. Ingenuamente a afago como se o colapso do tempo me desse a pedofilia de mim mesmo.
Nesse momento não ergo uma montanha porque o cume ultrapassaria a névoa. O medo fulmina o poiso de raízes prestes a morrer. Disseco-me entre as maravilhas da anatomia invertida. Vertida para dentro. O átomo de eternidade que encerrei no frasco de formol é apenas uma cisão. Não vejo por ela. Ela vê-me. Corrobora a invisibilidade de mim próprio quando o lúcido é opaco na sentença dos pórticos encerrados. Não os abro. Mas entreabro a suspeita de um momento fendido. Onde constantemente caio. Precipito pela terra como a cinza que nunca choveu para fertilizar a libido dos meus ossos.
No momento de ejacular para dentro de mim cerro os dentes na brancura lunar. O triste tristículo descriou-se. Sem dar à luz.
Desvazo os olhos e seguro o mundo pela ponta das pestanas.

bruno miguel resende