31 dezembro 2011

o peso e a medida

Estes quilómetros fizeram-se agora à estrada com a portagem de Alberte Moman. Não fora o registo, quem das águas reconheceria a particular partícula?

29 dezembro 2011

O vampiro sublimado


Nunca durmo de luz apagada. A escuridão total envenena-me. Acordo naturalmente com o aplauso do sol nos dias mais nítidos. Ou então, com a luminosidade triste que a chuva costuma injectar entre os vidros da janela e a virtude da persiana partida. Acordo com a cura do dia, digamos assim, entregue à normalidade e à reconciliação. Depois, desligo a luz do candeeiro e faço as minhas rotinas.
Mas esta noite faltou a luz. Já tinha acontecido ter faltado a luz durante a noite, enquanto eu estava a dormir, mas a Lua estava de bom humor e eu talvez tivesse mais clorofila. Lembro-me que acordei, olhei para o relógio e fui às apalpadelas até à varanda, completamente nu, para receber a única fonte de luz disponível e esperar pelo confortante romper do dia.
Mas esta noite, quando faltou a luz, a lua tinha migrado para outra galáxia. Valeu-me o jogo estúpido de uma caixa de fósforos no fim, operação vagamente contrariada pela humidade e pelos meus gestos entorpecidos, depois a chama do fogão a gás, na ausência de velas na casa, e, desidratado de luz, esperar pelo imenso dia seguinte.
Tenho a certeza que haverá uma outra noite em que a luz irá faltar. A Lua terá migrado novamente para outra galáxia. E nem sequer um único fósforo encharcado para conter momentaneamente a esperança eu irei ter para acender o fogão a gás, contemplar de perto a sua chama e, desidratado de luz, esperar a primeira ração de energia. "Nessa noite", diz o meu médico, "experimente desvincular um espelho da fronteira que o protege dos países bárbaros da realidade irreflectida, depois encha a banheira, ponha a flutuar o espelho à tona da água e salte para ele de uma altura considerável, vai ver que a luz, mais cedo ou mais tarde, aparece". 

27 dezembro 2011

"Habemus papam" - Nanni Moretti

(O segundo parágrafo do presente post tentará ser algo morettiano; mas como eu não sou o Moretti e ninguém pode ser quem não é, sair-me-á com toda a certeza um parágrafo simplista e até demagógico, pelo qual adianto desde já as minhas desculpas ao leitor)

A história que toda a arte sofre deve a sua configuração tanto ao progresso que experiência e pensamento conjugam numa impressão-de-dialética, como à casualidade com que os homens sempre remam a favor ou contra a corrente do tempo. Mas como ninguém empresta relevância a este último elemento da equação, e porque moda e modernidade se tendem a confundir nos corações frágeis, a vanguarda toma sempre um certo ar de censura para com tudo o que não se escreva com o lápis azul do momento. Por vezes com razão (o bolor está por todo o lado). Outras vezes não.

Aquele cinema contemporâneo que vai sendo objeto de consagração crítica (e de ameaça de institucionalização histórica) parece auferir o seu prestígio com base em três critérios: ascetismo (herdado de Dreyer e Bresson), violência gráfica (a tradição americana) e, acredite-se ou não, excentricidade (ou talvez deva dizer "esquisitice", para não ofender a brava ética daqueles que se mantêm fiéis a si mesmos). Claro que há excelentes exemplos de gente que trabalha bem esses pressupostos (Albert Serra, Park Chan-Wook ou David Cronenberg, respetivamente), mas a verdade é que, hoje em dia, é quase impossível ir ver um grande filme no qual se possa assistir a uma boa conversa, a um momento de prazer genuíno, a uma gargalhada, a um beijo terno, a um jogo de futebol, a uma dança despretensiosa, a qualquer coisa que nos faça lembrar a dimensão humana em toda a sua ausência de esplendor positivo ou negativo. A vida sem merdas, como se contemplava no cinema de Charles Chaplin, de Jean Renoir, de John Ford, ou (sim, sim!) na Nouvelle Vague francesa. Nunca me esquecerei da cena hilariante em que, num dos seus filmes, Nanni Moretti inferniza um crítico de cinema no seu leito de morte por este ter tecido elogios insensatos a "Henry: portrait of a serial killer".

Moretti não quer, portanto, ser o melhor cineasta (il più bravo), mas a sua menoridade indiscutível permite-lhe, em "Habemus papam", resolver o dilema metafísico que o escritor Herman Melville deixara em aberto (em ferida aberta) nas suas duas obras fundamentais: "Moby Dick" e "Bartleby, the scrivener". Apesar de, com toda a evidência, o realizador não ser um homem de fé, ele respeita o facto de que, para certos homens, Deus possa tomar a forma de uma intervenção transcendente neste nosso mundo Aquém. O presente à Igreja Católica que esta obra constitui (presente imerecido, como diz o autor, e eu concordo com ele) reside precisamente nisto: se um homem sente que foi na verdade escolhido por Deus, o seu primeiro passo de profunda fé é a imediata abdicação de todo o poder. A maior ambição confunde-se assim com a maior recusa de qualquer gesto de sobranceria épica. O cristão é aquele que simplesmente quer andar no meio dos outros homens.

O filme afigurou-se-me algo mágico, na medida em que o cineasta propõe uma hipótese histórica de uma grandeza burlesca (se bem que nunca faça o argumento entrar num absurdo buñueliano - como disse, Moretti é um autor menor) e, ao mesmo tempo, evita toda a atitude, que aqui seria espúria, de anti-clericalismo. É claro que ele sabe que os cardeais não têm a candura com que são representados em "Habemus papam" (uma coisa é Rossellini figurar a lenda franciscana com uma tonalidade infantil, outra será construir uma imagem edulcorada dos filhos da puta do Vaticano), mas a bonomia do tom do filme é essencial para que o ateu mostre que baixou as armas, pelo menos durante um momento, e está a revelar ao seu opositor qual é a verdadeira dimensão de uma ética política. Sem cinismo nem ironia de nenhuma espécie.

Claro que a obra não é tão pouco negra quanto parece. Note-se como a frustração parece ser a tónica da sociedade presente: não é só o papa eleito que gostaria de ter sido ator, também o psicanalista é um frustrado do voleibol. O próprio facto de o teatro se apresentar como a forma da verdadeira vida (o que é uma herança bergmaniana) tem o seu corolário sinistro na figura do ator enlouquecido, que pode valer quase como sinédoque do estado do mundo. De qualquer modo, "A gaivota" de Tchékhov (citada no filme) não dá uma imagem tranquila nem do teatro nem da vida.

A fita é ainda uma homenagem profunda a Michel Piccoli, que poderia ser quase um papa do cinema. Ao representar o papel de um homem que deixou de ser ator para se tornar padre, ele transmite aqui uma espécie de ética do intérprete, aquele que deve abandonar as características superficiais do seu métier (carreira, aprendizagem) para se fundir por completo no destino de um personagem. Ora, não está esta forma de abdicação em sintonia profunda com a espiritualidade de "Habemus papam"?

26 dezembro 2011

era uma mulher escrita há muito tempo

era uma mulher escrita há muito tempo
ou talvez fosse uma mulher sentada numa cadeira
com a hipótese de cair lá dentro
a sala à volta era suficiente
mas ela interessou-se pelo espaço quieto dentro da madeira
na quase divergência que era ver-se
com um infinito por dentro
a ser ultrapassada devagar
era a cadeira o mais apetecível
o importante equilíbrio da matéria sem vontade
será o não saber do problema da velocidade das coisas
que a debruçava para dentro
porque havia espaços mais quietos ali
espaços onde certamente os espaços dela podiam ser atrasados
não a forma e o nome de esperar
teriam ali dentro ficado debruçados de outros
e acima de tudo o que não podia entender era que de entre as duas
a que ficasse não devolvesse ali quieta
a história de movimentos lancinantes
de demandas a moinhos bem explicados
da velocidade ridícula a que se gastam as coisas vivas
tinha um século aquela cadeira
à medida de a assustar
e não lhe devolvia quase nada
a não ser que lhe fora escrita por um infinito
para outro que lhe iria nascer e sentar-se
na mesma cadeira
que a ultrapassou devagar





25 dezembro 2011

"SCINTILLA ANIMAE"

“Saltus Sublimis”

Teremos de admitir a hipótese de incluir Alma (Psichê) e Amor (Eros) numa única “mot (palavra) valise”. O mito de Psichê narrado no livro O “Asno de Ouro” de Apuleio (125-170 d.c.) - refere-se justamente a uma bela mortal por quem Eros, o deus do amor, se apaixonou. Chegamos, aqui, à questão de Eros em Psichê e Psichê em Eros - o Jogo e a Criação - o “Saltus Sublimis”. Daí decorre a Escrita do “Caos-Cosmo” - ainda uma vez “Psi”-"Emersa" no “Dictamen Obscuro”. A assinatura do Mundo - Eros - o seu “Semi-Dizer” - “apex mentis” ou - no dizer de Mestre Eckart – “scintilla animae”.

Gnosis

Podemos fixar a nossa atenção, por um momento, no processo descrito como exploração da alma (psichê) que se tornou explicitamente - no contexto do ensinamento gnóstico - uma demanda espiritual-religiosa. Analisa-se ou concebe-se o nomear adâmico -remetendo ao saber cabalístico - o corpo e a voz associada à terra - as palavras não-escritas. Considerando, portanto, a prossecução do "auto-conhecimento" (enquanto chave -directa ou indirecta - da compreensão das verdades universais - da palavra perdida - e que permanece representada pela "intuição"). Mas (seja qual for o nosso caminho) a via solitária e interior da "gnosis" envolve - aparentemente - o reconhecimento das "forças alucinatórias" do conjunto da fé que implica o "divino" - a demonologia das origens , "satã".

Religião da natureza e da salvação

Trata-se, portanto, de analisar aqui o que há de típico no significado da adoração ou o ateísmo da revolta (num tempo em que a religião - à sua maneira - se metamorfoseou progressivamente em "ética"). A todo o instante perguntamo-nos se é equívoco referir o duplo paralelismo entre a religião e o erotismo, inclusive - como tenta mostrar Walter Schubart - o da continuidade entre o eros procriador e o êxtasse criador, e da dialéctica do eros redentor e da religião da salvação . Podemos analisar aqui o que há de tensional - círculo vicioso - na religião da natureza (centrada no parto e na maternidade através da devoção- criação) com a religião da salvação (incorporando a criatura separada do seio materno e, no caso, remetendo-nos à nostalgia da origem).

"Ubíquo vento", ruach

O papel primordial, na mística judaica, da vida sensível - a criação (poiesis) comum à divindade e ao homem - o fulcro simultâneo do humano como o mais-do-que-humano - revela-se claramente ainda maior, se se considera a importância da hipóstase feminil de Deus (schekkiná). Poderemos distinguir de modo preliminar, no modelo cabalístico, a criação, revelação e providência, ou - como propõe Moshe Idel - os vasos que medeiam a presença do divino nos domínios do extradivino. No "Zohar - O Livro do Esplendor" - chama-se a atenção - com toda a evidência - para o facto de a união entre os humanos e Deus ser melhor efectuada por meio da "respiração". Aceita-se, pois, que "o sopro de Deus" impregna toda a natureza. Pode-se mesmo dizer que é o "ubíquo vento" ou o "espírito" - "ruach" - que dá vida ao mundo sensível. De notar que a cabala - como anota Maurice Ruben Hayoun - pretende ser simultâneamente uma física (poética) e uma metafísica: esta visão do universo concebe seres vivos como membros do cosmos.

Absolutização do signo

Poder-se-ia aceitar primeiro e em maior grau a noção revelatória da poesia. Pela sua natureza é ao mesmo tempo absolutização do signo e o esplendor do significado. Bastará falar dela aqui enquanto totalização da predicação. Será útil que nos detenhamos num ponto: a vida escrita (para invocar os impasses da letra e, por assim dizer, as projecções do insconsciente). Ou de outro modo: a poesia como particular reflexão da linguagem sobre si mesma (enquanto contra-discurso, an- arquía, sacralidade, opacidade ?).

Epifania da visibilidade

Sublinhe-se que quando falámos da tessitura simbólica do mundo nos referimos, em princípio, à sua pluralidade fenoménica. Dir-se-á que toda a manifestação - todo o sistema na sua complexidade - comporta um triplo aspecto: macrofísico, biológico e quântico (microfísico e psíquico). Levanta-se então o problema da univocidade lógica que não se põe ao poeta: já o dissemos. Vamos, por um momento, admitir que a sua voz torna-se oblíqua, isto é, assumpção "ex-cêntrica". "O seu modo - retomando a tese de Geofrey Hartman - é o infinito. Cada estrofe sugere uma etapa que nunca se atinge - a da epifania da visibilidade". 

23 dezembro 2011

A alvura desnuda a garganta

A alvura desnuda a garganta placentária - o homem derrete pelas asas graníticas do rio - pela colina descobrem-se poeiras e o mar sente-se pelos olhos. Nas veias o inomeável contagia os arbustos - as orelhas perdem-se pelo infinito - a porta fecha-se, a ranhura irradia, a placenta rebenta e na areia do irreconhecível : as águas soletram pelas brechas da casa - transporto-me nas raízes do ininterrupto. -
carlos vinagre

19 dezembro 2011

Dissidente ou o apanhado novo


Se há o solo por onde vôo a pés de mim
e se hei eu de quedar aos céus indeparáveis
deparáveis se o sol balouça os olhos, agora
já onde ergueu-se tua morada dissidente
sobre uma lasca da calçada com um palmo
de medida, sem estrada, sem pé nela, agora
já onde ergueu-se tua morada à sucção
de entornados tijolos teus, sem barro, sem mãos neles

Se há de carregar o dia esta janela, o sol balouça
vertiginosa esta janela, se há a mão de carregar
Se há de encorajar o dia este estado, o sol carrega
desengonçado este estado, se há a mão de balouçar.

A tua casa, o teu estado, a tua janela
tua fronha morna sob o poente embriagado
hei de carregá-los à cabeça, agora o sol
que balouça meu telhado já bajula destemido
o apanhado novo de tua sorte, agora os sóis
hão de pousar as tuas novidades aos indeparáveis céus.
Agora deparáveis.

carolina caetano

18 dezembro 2011

tristes tristículos

O nosso membro está morto; sucumbiu após a chegada do prazer, a saciedade da paixão e a emissão do esperma! O próprio membro, saindo precipitadamente da vulva, tenta manter a cabeça erguida, mas ela afunda-se mole e inerte. Os testículos repetem: “O nosso irmão está morto! O nosso irmão está morto!”.
em jardim das delícias, xeique nefzaui

Toda a vida me encarreguei de acumular sangue no frasco que é o meu corpo. Para o derramar para lado algum quando a ansiedade da morte for superior à minha. Todavia por vezes pingo. Tempestivas as gotas triunfais do neutro que albergo no bolso das ancas. O meu sangue não será da terra.
Quando não me saio gravitam-me nas órbitas as esferas da arritmia da íris. Porque não me vejo. Porque não me sou visto. E sempre que seguro os olhos sem pupilas com arames presos às pestanas lavo as unhas da carne. Se existe aguaceiro. Nessas encorrilhas não me murcham as flores brancas que comi embora não me tenham digerido. Mas também não se germinam. As outras não se sabem que existem.
Do cimo de uma nuvem de lençóis vejo chuvas das folhas secas entre os dedos que se sentem de ferro apontados aos olhos. Não pestanejo por entre a água que me escorre para os neurónios quando clamam ferrugem. Dessas vezes não me aponto como estatística sempre que tiro uma senha. Emolduro-a com palitos usados. E desenho uma gaivota morta entre os escombros da galeria de imagens que nunca imaginei. Pinto-me assim com traços de catapulta sem asas nas molduras nuas.
E não me satisfaz a sede. Preciso do que beber sem liquefacções. E nesse momento está longe. Entre a chama de uma perna e de uma outra. Cruzam-se perante a solidificação da labareda no centro da minha cabeça. Gemo sem saber ouvir. Assobio mas não me ouço. Não sei assobiar.
Entre tais tentativas de voo levo com a realidade de choque feita cabelos ao vento.
E na azáfama inerte do impulso espeto uma palhinha num vaso de flores murchas que já não eram brancas por nunca o terem sido esperando chupar a libido. Chupa-me. E não me venho. Não me chego. Concluia então que a terra me expulsara pela fenda cósmica de onde a gravidade seguinte seria sempre para o estado inferior. Entre o sangue. Já não me sabia germinar entre o que não tinha. Mas ousei por vezes. Ousei por vezes.
Derramava verbos escuros em sémen incolor por o não ver pela garganta abaixo enquanto pensava que a lua é quase branca. Mesmo assim não me branqueava. Já os brônquios me queimavam os pulmões pelas pontas. Esfumaçava as antropofagias que não me aprazem. E de tudo o que não se passa na alfandega da goela que rosna ao ouvido a independência.
Escuto pardais que encarnam a sirene. Não bailo. Não me sei bailar. Sinto os sepulcros pulsarem nas artérias. E olho os pulsos. Gesticulo o impermeável no ventre da folha branca com as lâminas da tinta. Dou sangue que se não vê. Pulsará?
Passo serotonina no ralador para a digerir com salada temperada a pétalas. Não clamo por ela. Não é uma ópera. É uma inoperância. Rodopio a língua entre a voz imersa tentando apagar a secura que me greta nos lábios descarnados. As vulvas na boca não humidificam por si. Encarno a humidade interna do útero que pinga o fumo sináptico. Sem tempero. Desta vez.
E sinto a erecção da poética entre as roldanas da criação.
Prefiro não ver a luz. Não me fere. É uma cura olímpica. Desembainho os dedos para o duelo da fricção. Friccionas-me. Emano o caule entre polpas de nádegas que não fazem falecer o tristículo. Ficou? Ficas? Entreabro os ouvidos deixando escorrer mel para o cérebro. Dilato a musculidade anal na presença do ferrão. Queres-me colmeia sem zumbidos. Adocica-se a temperança na penetração pendular.
Compulsiono-me na absoluta alquimia dos sumos de hormonas. Um ente bipolar. Mas qual pólo? Abafo o silêncio com o borbulhar das formas dimanadas das pontas dos dedos que me caem no outono. Espirram entre a escuridade dos traços imperfeitos feitos pela lâmina que dança entre a visão cortada. Vejo o duplo que me possui pelas entranhas onde a fronteira ruiu. Quimera de um sólido cerrado que se ejaculava para dentro. Para a implosão. Para a nudez dos trajes de pele límpida à navalha.
Porque a pele por vezes está infantil. Sem exclamação. Sem erecções de pilosidade. Ingenuamente a afago como se o colapso do tempo me desse a pedofilia de mim mesmo.
Nesse momento não ergo uma montanha porque o cume ultrapassaria a névoa. O medo fulmina o poiso de raízes prestes a morrer. Disseco-me entre as maravilhas da anatomia invertida. Vertida para dentro. O átomo de eternidade que encerrei no frasco de formol é apenas uma cisão. Não vejo por ela. Ela vê-me. Corrobora a invisibilidade de mim próprio quando o lúcido é opaco na sentença dos pórticos encerrados. Não os abro. Mas entreabro a suspeita de um momento fendido. Onde constantemente caio. Precipito pela terra como a cinza que nunca choveu para fertilizar a libido dos meus ossos.
No momento de ejacular para dentro de mim cerro os dentes na brancura lunar. O triste tristículo descriou-se. Sem dar à luz.
Desvazo os olhos e seguro o mundo pela ponta das pestanas.

bruno miguel resende
 

16 dezembro 2011

Casas mesquinhas

Há mais de três dias que Mauro Rubinstein não sai do quarto. Tudo começou com a leitura de um texto sobre a existência de “casas mesquinhas”, que Julio Ramón Ribeyro incluiu nas suas “Prosas Apátridas”. Nesse texto, Rybeiro sugere que certas casas não proporcionam o conforto intuitivo que todos necessitamos, mas, muito pelo contrário, acentuam a sua hostilidade funcional e exasperam uma espécie de luto prévio consignado a quem nelas se demorar e ousar estabelecer um qualquer pacto de paz ou vínculo de intimidade. Depois de ler e reler o texto de Rybeiro, como um manual de iniciação ao descalabro, um micro-cataclismo, desencadeado pela mais desabrida mistificação, irrompeu numa sala escura do reino de Rubinstein, situada algures num enclave do seu cérebro extremamente maleável à superstição.
Algumas horas depois, imobilizado ainda pela noite escura da cogitação e dos estragos, Rubinstein começa a recordar outros exemplos de casas mesquinhas na literatura mundial. Alguns anos antes de Rybeiro, Cortázar tinha já escrito aquele que foi considerado por muitos o primeiro conto publicado do autor de Rayuela: Casa Tomada. Este conto é talvez aquele em que o argentino mais parisiense de sempre melhor soube investir na questão fantasmática e injectar-lhe as sementes da paranóia, construindo mesmo um caso clínico complexo de folie-a-deux, tal como vem descrita nos mais modernos compêndios de psiquiatria.
No texto de Cortázar, dois irmãos, que parecem perfazer o reflexo perdido de outro par de irmãos famoso, Elisabeth e Paul, as crianças terríveis da novela homónima de Cocteau (e que Rubinstein irá resgatar mais tarde), herdam uma casa tão mesquinha, que até está apetrechada com um misterioso mecanismo de manifestar o seu desagrado e incitar a expulsão. O leitor desconhece que forças são essas que aquela casa tem. Não há a mínima indicação de que se trate de uma imposição extraterrestre, da presença de fantasmas de antigos inquilinos, de personificação paródica e abusiva da casa enquanto personagem ou ente, de qualquer outra estratégia de diluição fantasista ou lunática. Há, isso sim, uma tensão paralisante que nos é contagiada pelos protagonistas, até por fim a expulsão completa dos dois vencer os seus e os nossos medos mais graves, para segundos depois voltarmos a suar e a tremer, desta vez de afinidade psicótica, mórbida identificação e vácuo.
Persistindo avidamente pelos caminhos trilhados pela afinidade, a identificação e o vácuo, hoje de manhã Mauro Rubinstein deu por si a revisitar o quarto do homem que dorme no romance de Perec, como mais um paradigma de uma “casa mesquinha”, e pela primeira vez teve a sensação de que nem todos os instrumentos de expulsão de uma casa são iguais. Há casas que nos expulsam para dentro delas, fechando-nos numa repartição abandonada, fazendo-nos reféns mais ou menos voluntários da sua desonestidade crucial. E suspeitando que talvez houvesse uma espécie de festa clandestina no resto da casa sem o seu consentimento ou participação, Rubinstein levantou-se da cama, calçou os chinelos, dirigiu-se à porta fechada do quarto e quando a abriu verificou que o resto da casa tinha sido expulsado pela sua própria expulsão.

15 dezembro 2011

O PALCO - A FALA - SIGNO - ESPÓLIO DA CEGUEIRA -




- VÓRTICE - DO DESNECESSÁRIO -

através da obscura minúcia - o palco - que resplandece - impetuoso - brilho dos projectores -vórtice - do desnecessário -

boca de cena - vicissitude do actor que irrompe - in - voluntário - na iminência do crime - fundura e vazio - da arte -

- LUCIDEZ - DOS PLANOS SUCESSIVOS -

atrás dos holofotes - o estertor da luz - os andaimes - lucidez - dos planos sucessivos - a inabarcável língua - do anónimo -

- PROFUSÃO DO INVULNERÁVEL

sobre o bosque - olvidado - a fala - signo - espólio - da cegueira - incongruência - do inerme - destruição - voz - anúncio -

êxtasse do corpo - profusão do invulnerável - o incógnito animal - fugaz - que ilumina - o verbo incessante -


14 dezembro 2011

Um em cada esquina


A figura lendária de Cristo trouxe consigo (de onde, não me interessa) uma iluminação bastante incómoda: a ideia de que o amor seria um fator tão público quanto privado e poderia desse modo funcionar como o elemento constitutivo e agregador de toda a sociedade humana. A mensagem, claramente (e a despeito de habermus papam), não vingou.

Talvez Cristo não tivesse razão (aliás, eu sou daqueles que acham que o Espinosa, príncipe dos filósofos, é que talvez a tivesse um pouco). A maior prova da impraticabilidade da sua teoria é o facto de a maioria dos cristãos serem defensores empedernidos de um modelo económico no qual a palavra "amor" só entra enquanto material para anedotas de puro cinismo. Bem, se eu acreditasse que o filho de Deus himself tinha pronunciado tão inquietantes palavras, não descansaria enquanto não me tornasse santo. Mas, enfim, reconheço que eu talvez seja um bocado exagerado.

De qualquer modo, mesmo o maior disparate (ou talvez só o maior disparate?) costuma conter em si um indício revelador de qual é o verdadeiro problema a que ele não conseguiu dar solução. Cristo tocou, de facto, numa corda sensível: a da continuidade entre erotismo privado e erotismo público. Que ele tenha pressuposto que essa continuidade seria cristalina e inconsútil, só vem dar razão àqueles que defendem que a sua mãe não terá sido fodida por ninguém.

Mas as teorias civilizacionais de Freud voltam a pegar o touro pelos cornos (ainda que isto de touradas da mente não seja nada consensual). E embora o amor seja assunto que se queira sempre confinado (confinado à adolescência, ao adultério que permanece oculto, à pornografia em rede, à casa de putas, à instituição poesia, ao comércio cinema, à histeria pop, ao consultório do sexólogo), é preciso ser muito marxista para não reconhecer o papel do erotismo na dinâmica da vida política. Não é preciso chegar ao Hitler... Basta pensar na inflexibilidade ereta de José Sócrates, na voz maviosamente treinada de Pedro Passos Coelho, na genuinidade oral de Cavaco Silva comendo a sua monárquica e honesta castidade, no glamour misterioso de Álvaro Cunhal ou nas estrias que a boa vida deixou na popularidade de Mário Soares para percebermos que, se não podemos passar, por analogia simplista, de um erotismo a dois para um erotismo de multidão, também não nos é lícito supor que o desejo e suas múltiplas fantasias, taras, frustrações e segredos, não seja um motor da experiência da cidadania. Claro que nos virão dizer sempre que não, que há o Direito, a Grécia Antiga, a Maria Barroso...

Jean Genet, na sua obra dramática "A varanda" (que vi recentemente representada pelo Teatro da Cornucópia) vem pôr o dedo em toda esta ferida. Ao contrário de Cristo, como seria de esperar: ele não vem propor uma salvação mas exibir o mal em toda a sua glória. Os textos de apoio ao espetáculo que vinham registados no seu programa pareceram-me de uma candura inacreditável (mesmo o de Lacan). É como se ninguém quisesse realmente admitir o descaramento ao mesmo tempo despido e feroz do marginal escritor.

Desde logo discordo do pressuposto de que Genet não esteja a falar de si mesmo neste seu texto tardio. Pelo contrário, o autor vem reclamar que, sendo o bispo, o juiz e o general, figuras do imaginário erótico coletivo (enquanto detentores de um poder ativo na sociedade), a sua situação enquanto homossexual exige que uma nova fantasia de autoridade seja celebrada, a saber, a do polícia (que tanto o sugestiona enquanto macho inequívoco como enquanto contrapartida do prazer algo masoquista que encontrou na marginalidade). Lamento imenso desiludir todo o espectro político, da extrema esquerda à extrema direita, assim como os psicanalistas edificantes e o público do teatro, mas "A varanda" é, acima de tudo, uma peça sobre o prazer de se ser enrabado.

Não quero com isto dizer que a obra seja reacionária (Genet foi solidário com as causas dos negros ou dos palestinianos, e manteve uma postura de outsider até ao último momento da sua vida). Mas o autor disse, uma e outra vez, que não havia nenhuma intenção satírica em "A varanda" (nem nenhuma militância política em sentido estrito), sendo o texto sobretudo uma glorificação da imagem e do reflexo. Ou seja, um produto de puro erotismo. A auto-castração do revolucionário vencido que decorre perto do fim da peça é indiciadora do desejo de passividade de todo o homem perante o fascínio fálico de um detentor do poder.

Genet não se via como um modelo de virtudes (ao contrário de Cristo, ao contrário de Sartre). Ele oferece toda a sua maldição numa festa que ao mesmo tempo é capaz de nos pôr de pau feito e de nos alertar para os escombros mais profundos do pensamento. Não sinto grande concordância com o seu exemplo moral (aliás, no presente, a homossexualidade já nem é um problema que se possa colocar da mesma maneira), mas prefiro de longe toda esta arte feita de flores do mal do que as páginas dos autores nobelizados que mais se assemelham aos programas do Bloco de Esquerda do que a visões sinceras e inquiridoras do que significa ser humano. De qualquer modo, se, depois de "A varanda", ainda quiser continuar a acreditar bonacheironamente na farsa da política (tal como esta usualmente se apresenta), é porque, se calhar, o seu cu tem razões que a razão desconhece.

Entretanto, regresso ao Espinosa, que, parece-me a mim, passou pela vida como se esta fosse um labirinto incapaz de lhe impedir a saída para o rigor.

13 dezembro 2011

O meu sangue corre roxo

O meu sangue corre roxo - a faca, na artéria, espuma-se: o gorgolejo da água fecha o ventre. Na água mergulha o cérebro, a emoção desfia pelo rio corporal - a pele abre perante a pandemia ocular: a minha seiva é o colapso do silêncio. O punhal circula pelo abdómen até que a dor embriague - Fecho os olho - Pesquiso pela esquizofrenia as raízes da casa-boca - reabro a praia ao oxigénio, à semântica das árvores. Estou epi-eléctrico ante o músculo.
Carlos Vinagre